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Cineasta François Ozon larga estética erótica para mostrar pedofilia na Igreja

'Graças a Deus' levou prêmio do júri em Berlim; padre francês tentou barrar estreia do filme

Guilherme Genestreti
Berlim

Os filmes mais conhecidos do cineasta François Ozon são dotados de inconfundível verve erótica. Neles desfilam corpos à beira de piscinas, estirados em sofás ou arfando em gramados, geralmente capturados por lentes próximas de seus poros.

Em “Graças a Deus”, longa que estreia nesta quinta (20), o corpo está presente, como não poderia deixar de ser, mas despido de qualquer sugestão sensual. Não é para menos. Em jogo estão os espinhosos bastidores dos escândalos de pedofilia na Igreja.

Os protagonistas —Alexandre, François e Emmanuel— guardam na pele, cada uma  seu modo, heranças do abuso cometido décadas atrás, quando eram escoteiros em acampamentos católicos.

A história, inspirada em um caso ocorrido na cidade francesa de Lyon, começa quando o primeiro deles descobre que o padre que abusou dele na infância ainda é tutor de crianças. Sua indignação desperta o trauma adormecido nos demais, que se juntam numa rede para desbaratar a rede clerical de acobertamento.

Mas, ao contrário do que ocorre no oscarizado “Spotlight”, que explora os bastidores dessa teia em Boston, o que inquieta Ozon é o peso do trauma nas vítimas.

“Meu objetivo não era tratar desse tema em especial, mas falar da fragilidade dos homens”, disse o diretor a este repórter em fevereiro, durante o Festival de Berlim, onde o longa estreou e de onde saiu com o grande prêmio do júri, o segundo mais importante do evento de cinema.

Tendo dirigido uma série de obras com protagonistas mulheres, ele afirma que buscava explorar a sensibilidade masculina, “tão pouco mostrada no cinema”.

Topou, então, com o site da associação La Parole Libérée (algo como a palavra liberada), grupo de apoio a pessoas que dizem ter sofrido abusos sexuais do padre Bernard Preynat, que por sua vez teria sido protegido pelo arcebispo de Lyon, Philippe Barbarin.

O cineasta tomou poucas liberdades ao contar a história e optou por dar aos personagens os nomes reais dos envolvidos no caso. “Muitas vezes, a realidade é a melhor das roteiristas”, diz.

À época do lançamento do filme em Berlim, Preynat havia acionado a Justiça para tentar barrar a estreia do filme na França, logo em seguida, sob o argumento de que a obra poderia influenciar o seu julgamento, que corria.

“A nossa ideia era lançá-lo um ano depois do desfecho do processo, mas acabou selecionado para o festival antes”, disse Ozon, que se mostrava confiante na “maturidade do Judiciário francês para não ser influenciado”.

Ele reluta em chamar seu longa de uma obra política. “É um filme cívico, de utilidade pública.”

Um mês depois da entrevista, Barbarin acabou condenado, sob a acusação de ter acobertado as acusações de abusos. O caso de Preynat ainda não foi julgado.

Para levar adiante a produção do filme sem qualquer interferência, o diretor teve que esconder o tema do filme. Ao rodar em locações reais em Lyon, teve que adotar codinomes para os personagens. E optou por filmar o interior das igrejas na Bélgica e em Luxemburgo para não ter de recorrer à autorização de Barbarin.

Enquanto “Graças a Deus” era filmado, a França passou por mudanças legislativas que endureceram a punição aos crimes sexuais e aumentaram o prazo de prescrição deles.

“Faz todo o sentido”, afirma o diretor. “Muitas vezes, as pessoas vivem esses traumas, mas só se dão conta deles muito mais tarde em vida, quando já se está com 40 ou 50 anos.”

Ex-católico, Ozon deixou a fé quando chegou à adolescência e se descobriu gay. “Eu não podia suportar a hipocrisia da Igreja em relação à sexualidade”, diz.

“O que eu lia nos Evangelhos eram mensagens de generosidade, abertura e outras ideias ligadas à esquerda do espectro político, mas levadas a cabo por conservadores que não creem em tolerância.”

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