Descrição de chapéu

Com Bete Coelho em seu apogeu, 'Mãe Coragem' espelha nossas misérias

Direção de Thomas para criação de Brecht carrega o palco de lama e chuva, em trágica desumanização

Nelson de Sá

Mãe Coragem

  • Quando Ter. a sáb., às 20h30; dom., às 18h30. Até 21/7
  • Onde Sesc Pompeia. R. Clélia, 93, Água Branca
  • Preço R$ 12 a R$ 40
  • telefone (11) 3871-7700

A lama de campo de batalha impressiona não só pelo choque alegórico, logo de cara, mas pela maneira como funciona, tecnicamente. Não se tem, como na criação célebre de Robert Lepage para “Sonho de uma Noite de Verão”, os atores tragados pelo chão, atrapalhando a ação.

O cenário de Daniela Thomas e Felipe Tassara é perfeito. A chuva em cena não afeta sua praticidade ou os incontáveis significados —e como repercutem nas atuações, em trágica desumanização pelo dinheiro e pelas armas.

Mas são as canções que aproximam mais de Bertolt Brecht e de duas artistas que o público não costuma relacionar à música, a diretora Thomas e a atriz Bete Coelho.

Não é musical, mas chega perto, pontuado pelas composições teatrais de Paul Dessau, com execução irretocável pela banda encabeçada pelo próprio diretor musical Felipe Antunes. E cantadas de forma eficiente, por vezes escarnecendo e noutras emocionando, pela protagonista.

Espera-se sempre de Brecht algum cabaré, inspiração primeira de seu teatro, inclusive na comunicação direta com a plateia, mas esta “Mãe Coragem” tem, novamente, imensa precisão e apuro.

E assim finalmente introduz Coelho —talvez o maior nome do palco brasileiro já por décadas— ao gênero. Como Judi Dench e Paulo Autran disseram das experiências também bem-sucedidas em musical, ela canta-interpreta sem diferenciação em meio à atuação em tudo exuberante.

A montagem opta com êxito por sarcasmo nas interpretações. Segue Brecht, mas novamente com particular competência e versatilidade.

Não que tudo funcione. O espetáculo foi preparado antes das revelações sobre como se deram os julgamentos dos últimos anos —e a mensagem que tenta passar sobre justiça, num breve instante em que se leva a sério, quase em discurso, soa fora de lugar.

Um moralismo que não só contrasta com Brecht, mas com a própria realidade brasileira, a esta altura tão próxima do retrato brutal e quase cínico que o autor alemão faz dos interesses.

“Mãe Coragem” fala à realidade não pelo tópico, mas pelo conjunto, pela forma como trata o egoísmo mesmo naqueles que amam. A personagem ama os três filhos, luta para que sobrevivam. Mas é quem os submete à guerra e por fim os destrói.

O grande gesto de Coelho não é aquele do sempre aguardado grito mudo diante da morte do filho —embora ele funcione, mesmo deslocado— e sim o último, paralisada antes do blecaute, do fim. A imagem é reunião singular da direção de Thomas com a atriz, culminando as três décadas de trabalhos de ambas.

A mãe, de volta à guerra, não sai do lugar. Seu rosto se empalidece, em parte pela luz de Beto Bruel, diante da tragédia de estar ali, na lama das mortes, das armas, de suas próprias misérias morais. Difícil não relacionar com o Brasil.

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