Criada no Carandiru, dupla de rap 509-E prepara primeira turnê em liberdade

Rappers Dexter e Afro-X se reencontram no palco para celebrar os 20 anos do projeto

Dois homens de boné sentados à frente de uma parede azul

Os rappers Afro-X e Dexter, que formaram a dupla 509-E quando dividiam cela no Carandiru. Grupo foi importante para o hip-hop nacional dos anos 2000 Karime Xavier/Folhapress

Lucas Brêda
São Paulo

Amigos de infância, Dexter e Afro-X ficaram mais de dez anos sem se falar. “Convivi com ele mais do que com a minha própria família. Foram sete anos juntos, todos os dias, 24 horas por dia. Preferimos cada um seguir o seu próprio caminho”, conta Afro-X, lembrando o período que passaram juntos na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru.

A cela que os rappers dividiam, a 509-E, deu nome ao grupo com o qual lançaram dois discos entre 2000 e 2004. Foi depois disso que se separaram e ficaram afastados.

A reconciliação da dupla, que vem se esboçando desde 2017, vai gerar um reencontro inédito. Em agosto, eles sobem ao palco juntos não apenas pela primeira vez em 16 anos —será também a primeira apresentação fora do cárcere, na qual celebrarão as duas décadas do 509-E.

“Queremos resgatar um legado que ficou jogado, abandonado”, defende Afro-X, sublinhando que a turnê de reunião não renderá novas músicas e será limitada a sete ou oito capitais, tudo no segundo semestre deste ano.

O primeiro show está marcado para São Paulo, em 24 de agosto, no Audio Club.

Perto de grupos contemporâneos, como o Racionais MC’s e o RZO, o 509-E acabou esquecido. Mas isso diz mais sobre os novos caminhos trilhados pelo rap —cada vez mais presente na música pop— do que sobre a importância do duo.

Durante a curta carreira, eles ganharam dois prêmios Hutúz (especializado em rap), incluindo um de melhor álbum da década, foram indicados a um VMB (da MTV), participaram de programas da Globo, viraram tema de filme e até de reportagem na revista americana Newsweek.

“Provérbios 13”, primeiro e mais importante álbum do grupo, vendeu 90 mil cópias oficiais, sem contar os discos piratas. A música “Saudades Mil” foi uma das mais tocadas do ano 2000 nas rádios de São Paulo. Atualmente, mesmo sem material novo ou qualquer promoção, o 509-E tem 100 mil ouvintes mensais só no Spotify, por exemplo.

Mais do que números, a dupla acredita que o valor está no significado do feito. Dexter e Afro-X se conheceram ainda crianças, jogando futebol nos campinhos de terra do morro Calux, favela de São Bernardo do Campo. “A quebrada era rua de terra, barraco de madeira”, lembra Dexter.

Assim como toda a geração de rap brasileira da década de 1990, eles conheceram o gênero nas rádios e nos bailes black. Encantavam-se pela postura e pelas batidas do Public Enemy, mas não entendiam as letras em inglês.

“De repente, uma música dos Racionais, ‘Pânico na Zona Sul’, retratava as ações dos justiceiros da polícia no Capão Redondo —e não era muito diferente de onde eu morava”, diz Dexter. “Minha cabeça abriu completamente. Era como se eu tivesse passado a minha vida inteira no quarto escuro da ignorância.”

Os dois tiveram diferentes grupos de rap até 1998, quando foram presos com um mês de diferença. Na época, Dexter havia pedido bases instrumentais para Mano Brown e Edi Rock, dos Racionais, mas o acordo que tinha com a gravadora furou, e ele ficou sem dinheiro para o estúdio.

"Meus ídolos estavam produzindo, eu ia desistir?”, lembra Dexter. Foi então que, na companhia de Afro-X, ele começou a fazer assaltos para juntar os R$ 4.000 de que precisava na época.

“Nunca fomos assaltantes violentos. Nosso esquema era pegar a grana e sair. E a gente pensava que algum seguro cobriria o dinheiro, sabe? Não entendíamos direito, mas tínhamos um plano. E era eficaz. Graças a Deus nunca precisamos dar tiro em ninguém”, diz Dexter. “No dia que fui fazer o último assalto, pegar o dinheiro que faltava, fui preso.”

Afro-X e Dexter estavam em cadeias diferentes e ambos tentaram fugas malsucedidas antes de acabarem juntos no Carandiru. Dexter levava consigo um caderno com esboços de raps e uma foto que tirou ao lado do ídolo e parceiro Mano Brown.

Àquela altura, o rapper dos Racionais já havia lançado “Diário de Um Detento”, clássico em que retrata o massacre do Carandiru, de 1992, quando uma tentativa de rebelião acabou com 111 presos mortos após a intervenção da polícia.

“Quando cheguei na prisão, os caras falavam pra mim: ‘Neguinho, se eu tivesse esse talento não ficava no crime’”, conta Dexter. “O criminoso nunca quer que seu filho seja criminoso também. O traficante não quer que seu filho seja traficante.”

Em 1999, a dupla já estava estabelecida. Eles “compraram” de outros detentos a cela 509-E e a equiparam com caixa de som e microfones. Conseguiram fitas com instrumentais de músicas estrangeiras e fizeram as primeiras gravações “caseiras”. Com ajuda de Sophia Bisilliat, responsável pelo projeto social Talentos Aprisionados, as demos chegaram aos ouvidos de executivos da gravadora Atração, que tinha um selo especializado em hip-hop.

“Provérbios 13” foi gravado em quatro saídas da cadeia. Os produtores reuniram alguns dos maiores nomes do rap nacional. Além de Brown e Rock, participaram DJ Hum, MV Bill e DJ Zegon (hoje no Tropkillaz, ele já trabalhou com Sabotage e Planet Hemp).

“Levamos a linguagem das cadeias para as ruas”, comenta Afro-X. “É o dialeto que começa lá dentro, chega na periferia e depois vai parar na televisão”. Segundo Dexter, o diferencial era a abordagem esperançosa do ponto de vista de alguém no cárcere. “Você via dois caras presos, mas falando sobre vida”, diz. “‘Saudades Mil’ é uma música sobre sentir falta. Bate forte no coração do vagabundo.”

A cada show, eles precisavam de autorização para deixar o Carandiru. Mesmo assim, fizeram apresentações memoráveis, como no festival Millenium Rap, que reuniu cerca de 50 mil pessoas em 2000.

Tanto Dexter (em liberdade desde 2011) quanto Afro-X (que saiu em 2005) mantiveram carreiras solo, mas nada próximo do 509-E. Até por causa disso, os shows da pequena turnê de reunião, chamada de “Vivos”, terão um roteiro costurado pelas memórias do período em que eles perderam a liberdade.

Dexter afirma que o 509-E não faz defesa do crime. “A sociedade vende que você tem que ser bem-sucedido, e isso é sinônimo de portar um Nike, uma Lacoste. Não tem problema usar marca, mas falamos que isso tem que ser uma conquista. Não precisa meter uma arma na cabeça de alguém. É uma lição que aprendemos. Mais do que tudo, é sobre preservar sua vida.”

Na visão de Afro-X, a existência do 509-E “fura a lógica do Estado”, a de quem um preso sai ainda mais criminoso do que quando entrou na prisão.

“Quanto mais se investe em cadeia, mais reincidência existe”, diz. “Imagine alguém que está preso e vê dois caras que conseguiram fazer esse trabalho e sair. Viramos referência, trouxemos essa discussão. Ainda mais se você perceber que, 20 anos depois, ainda estamos aqui —e não voltamos para o crime.”


Principais músicas do 509-E

'Oitavo Anjo’
Possivelmente a música 
mais famosa da dupla, virou o codinome de Dexter em sua carreira solo. Sobre um sample de ‘Por que É Proibido Pisar na Grama?’, de Jorge Ben Jor, o MC se perdoa ao mesmo tempo em que desiste da vida no crime. ‘Não seja você mesmo seu próprio inimigo’, diz na letra

‘Saudades Mil’
A despeito dos temas mais densos e do retrato da vida na cadeia, a balada fala de amigos e família. Uma base de soul com cara de anos 1970 dá tom nostálgico à faixa

‘Uh Barato É Louco’
Típico rap dos anos 1990, com groove de baixo e batidas secas, a faixa traz crianças repetindo o nome do grupo no refrão. Aqui, o rap aparece como caminho alternativo à vida no crime

‘Castelo de Ladrão’
A dupla idealiza passeios pela noite de São Paulo até que o sonho é interrompido de maneira abrupta: ‘É hora da contagem, ladrão’

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