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Cinema

Decoração excessiva foi marca do cinema de Franco Zeffirelli

Em filmes como 'Romeu e Julieta', diretor fazia bom uso de cenografia e figurinos

Inácio Araujo

Nenhuma religião teve tanta afinidade com o cinema quanto o catolicismo. Pode-se até criar uma hierarquia dos cineastas que estiveram próximos de seus princípios. Houve teólogos (Roberto Rossellini, Robert Bresson), houve cardeais (Alfred Hitchcock), houve também hereges (Pier Paolo Pasolini), padres angustiados (Martin Scorsese). Eis uma hierarquia ultraprovisória, onde caberia até um Luís Buñuel, esse anticristo que foi tão anticristo que, no fim das contas, só poderia ser outro grande herege.

Bem, onde colocar Franco Zeffirelli, que acaba de morrer, em Roma, aos 96 anos? Digamos que Zeffirelli nunca foi mais que um coroinha. Aquele que, à força de ver os gestos de seus mestres, termina por assimilá-los, mas apenas a casca, nunca o significado.

Zeffirelli foi assistente do melhor e do pior Visconti. O melhor: “Sedução da Carne” (1954). O pior: “Belíssima” (1951). Foi assistente também em “A Terra Treme” (1948), mas esse foi um filme um tanto particular, bem distante em certos aspectos do que seria o Visconti posterior.

Em Visconti, a direção de arte é central: ele é um decorador, se tirarmos fora a direção de arte de seus filmes, eles desmontam —independentemente de suas outras e muitas virtudes. Esse o aspecto que Zeffirelli mais assimilou de seu mestre: a decoração. Ela lhe rendeu grande popularidade, na medida em que pode ser associada muito facilmente a uma atitude “artística”. A beleza de folhinha sempre teve seus fãs.

No entanto, diga-se, Franco Zeffirelli começou por cima, dirigindo uma “Megera Domada” (1967) com ninguém menos que Elizabeth Taylor e Richard Burton. O vento soprava a favor do filme: Shakespeare, claro, nunca atrapalhou ninguém. Taylor e Burton eram grandes atores, porém, mais que isso, viviam seu primeiro e tempestuoso casamento (eles se separariam e recasariam pouco depois). O que mais a propósito para lançar um jovem cineasta italiano, numa coprodução internacional do que uma comédia de marido e mulher às turras?

Mas esse era, afinal, um filme de Burton/Taylor. Seu primeiro sucesso pessoal, e o maior deles, veio no ano seguinte, com a adaptação de “Romeu e Julieta” (1968), transformada basicamente em melodrama para cortar corações.

Ninguém dirá que foram injustos os dois Oscar, para fotografia (Giuseppe de Santis) e figurino (Danilo Donati). Eram pontos fortes de um filme em que Zeffirelli aproveitava muito bem os usos, costumes, arte e figurinos de Florença (já que era um florentino). Como em toda adaptação de Shakespeare, a peça garante ao menos metade do sucesso. É o autor ideal para gerar falsos gênios. O sol da Toscana faz o restante.

Houve mais, admita-se: o filme teve o mérito de colocar em cena dois atores realmente jovens (e não coroas fazendo o papel de jovenzinhos). Estávamos em 1968, o mundo parecia que ia explodir, então o trágico descompasso entre o amor dos dois jovens e a rivalidade entre suas famílias não deixava de ser um tema oportuno. Tanto mais que Zeffirelli parecia dizer: deixe que os jovens decidam o que fazer de suas vidas, cuidem de vocês e não chateiem.

Revisto hoje, mesmo suas virtudes (os figurinos) parecem hipertrofiadas a ponto de tornarem o filme intragável.

Nada, porém, que se aproxime de “Irmão Sol, Irmã Lua” (1972), seu filme seguinte. O irmão sol é ninguém menos que são Francisco de Assis (a irmã lua, sua parceira, Santa Clara). Francisco de Assis foi o grande reformador do catolicismo, sabemos hoje, aquele que tirou a Igreja do buraco de exclusões e heresias e buscou fazer com que todos os seres fossem vistos como, afinal, criaturas de Deus.

Na visão de Zeffirelli, porém, ele é essencialmente um jovem disposto a renunciar às riquezas do mundo (sobretudo a seus trajes) e se dedicar à pobreza. Ainda assim dá para o cineasta mostrar as pompas da Igreja. E se deter sobre a beleza suave e cercada de cachoeiras da bela Clara, no que parece que vai se transformar num comercial de desodorante.

Não foi tão diferente o que veio depois. A “marca” Zeffirelli já estava registrada e seria difícil escapar a ela. De todo modo ele não parece ter pretendido. Sua “Traviata” (1982), por exemplo, povoada de balangandãs, ele a retomou praticamente “ipsis ​litteris” na montagem da ópera.

Quanto a “Amor sem Fim” (1981) o melhor será silenciar. Nesse retorno ao tema do amor proibido, Zeffirelli produziu um melaço perto do qual “A Lagoa Azul” (com a mesma Brooke Shields) parece uma obra-prima.

Tudo perdido? Não ainda. Pois já na maturidade, naquela que foi, na prática, sua despedida do cinema, o cineasta italiano parece ter se despido dos frufrus que tanto cultivou em "Chá com Mussolini" (1999) e compôs uma imagem mais singela, mais sólida e de certo modo insólita da vida em Florença durante a era de Mussolini.

A vida sob o fascismo vista ali a partir dos olhos de uma aristocrática inglesa que, quase todo o tempo não sabe muito bem o que está acontecendo, não deixa de evocar Fellini em alguns momentos, não evita o humor e, justamente a partir dessa, digamos, alienação do grupo de personagens, termina por criar um retrato grave do fascismo.

Pode não ser uma obra-prima, mas Zeffirelli ali esqueceu o esteticismo que o consagrou e dedicou-se mais modestamente à exatidão. Um final de carreira que ninguém dirá indigno.

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