Descrição de chapéu Artes Cênicas

'É como se meu livro regressasse a mim', diz Valter Hugo Mãe

O escritor assistiu à peça 'A Desumanização', primeira adaptação que autorizou no país

Walter Porto
São Paulo

"É como se meu livro regressasse a mim de forma muito mais enriquecida", disse Valter Hugo Mãe

Foi a reação a quente do escritor, um dos principais nomes da literatura em língua portuguesa, à adaptação teatral de seu "A Desumanização", em cartaz no Sesc Santana. Ele participou no domingo (16) de uma conversa após a apresentação do espetáculo, junto ao diretor, José Roberto Jardim, e às atrizes Maria Helena Chira e Fernanda Nobre.

 

Transpor a obra de um autor a um formato diferente é, com frequência, um tiro no escuro: não é raro que escritores chiem ao ver mudanças bruscas no material confeccionado minuciosamente por eles —uma prática necessária para que funcione em uma plataforma distinta.

Foram explícitas, só para citar duas, as decepções de Roald Dahl e P.L. Travers com as transposições de suas obras para o cinema.

A adaptação de "A Desumanização", obra brutal que argumenta no próprio texto o efeito central da palavra na compreensão do outro e de si próprio, faz de cara duas alterações severas no original: coloca a narrativa no passado distante (no livro, o relato é mais próximo) e divide a interpretação da protagonista, uma moça cuja irmã gêmea morre ainda criança, em duas atrizes.

Mãe pareceu receber as mudanças não como um assalto, mas como uma enorme dádiva. "É o elogio mais impressionante que alguém já fez ao meu livro." 

Ele contou ter rejeitado de pronto as ofertas para interferir na adaptação de seu texto aos palcos. "Eu jamais saberia fazer isto. Só soube fazer o livro que fiz." 

É bom ressaltar que o espetáculo foi autorizado pelo autor —a primeira vez que ele deu esse tipo de aval no Brasil—, que foi contatado há cinco anos por Chira, idealizadora do projeto.

A atriz desfiou seu longo périplo para fazer a peça acontecer, seu temor de se aproximar do escritor e a generosidade que ela encontrou em sua recepção. Valter disse ter julgado a visão de Chira cômica. "Eu não fiz nada." 

Ele disse, na verdade, ter desejado intensamente que a montagem se concretizasse. "Há certos sonhos que você se acostuma à ideia de que nunca vão se realizar, encontra uma paz com isso. Eu ficava imaginando que se um dia ficasse milionário, se um dia encontrasse uma joia no meio da rua, bancaria tudo."

A sessão do domingo foi a segunda consecutiva a que Valter assistiu. Dessa vez, disse, estava "mais calmo, mas não mais inteligente".

Durante a sessão, o autor puxou o celular para fotografar discretamente uma cena em que as atrizes se debruçavam em mesas espelhadas; ao apagar das luzes no final, ele respirou fundo por dois segundos e soltou o ar ruidosamente, como alguém que acaba de emergir de um mergulho.

No início, com dois minutos de peça transcorrida, o diretor irrompeu à frente do palco para anunciar, envergonhado, a necessidade de começar de novo por um problema técnico. Valter murmurou, divertido, que nunca tinha visto isso acontecer no teatro e passou a especular com as pessoas ao lado qual defeito teria ocorrido.

A montagem serve para estreitar ainda mais o laço do autor português com o Brasil, país do qual já é íntimo: além de ver a adaptação, ele está de visita para uma homenagem no Fliaraxá, festival literário da cidade mineira. A Biblioteca Azul também está lançando três novos livros para completar a publicação de toda a prosa de Valter por aqui.

O próximo livro que ele está escrevendo, a propósito, se passa em terras brasileiras, numa ilha imaginada no meio da Amazônia.

"Gosto de me colocar em perigo", afirmou o escritor, explicando que a história seria sobre o encontro de um povo indígena com uma comunidade negra na floresta. "Eu, um português esbranquiçado, quis escrever sobre dois povos que foram diminuídos pelo meu povo".

Terreno novo e movediço para um escritor que, segundo suas próprias palavras, se incomoda com a ideia de ser "mais ou menos a mesma pessoa ao longo de toda a vida" e, por isso, busca ampliar-se nas veredas da escrita.

A Desumanização

  • Quando Sex. e sáb., 21h; dom., 18h. Até 30/6.
  • Onde Sesc Santana (av. Luiz Dumont Villares, 579)
  • Preço R$ 40
  • Classificação 16 anos
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