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Em nova série da HBO, Emma Thompson é versão de saias de Trump, ou mesmo de Bolsonaro

Minissérie britânica 'Years and Years', nova aposta do canal, mistura 'Black Mirror' e 'This Is Us'

Tony Goes
São Paulo

Years and Years

  • Quando sextas-feiras, às 22h
  • Onde HBO
  • Elenco Jade Alleyne, Maxim Baldry, Sharon Duncan-Brewster, Emma Thompson
  • Produção Reino Unido
  • Direção Russell T. Davies

Uma adolescente revela aos pais que é trans. Não transexual ou transgênero, mas transumana: ela quer fazer o download de seu cérebro em um computador, livrar-se do corpo físico e viver para sempre de forma virtual.

Um homem tem um pequeno robô que funciona como empregado doméstico. Com alguns acessórios a mais, o androide se transforma em parceiro sexual.

Faltando apenas quatro dias para terminar seu segundo mandato, Donald Trump dispara um míssil nuclear contra uma ilha artificial onde funciona uma base militar chinesa.

Cada parágrafo acima sugere um episódio independente de “Black Mirror”, a série da Netflix que imagina as consequências da tecnologia em um futuro próximo.

Na verdade, eles estão interligados em “Years and Years” (anos e anos), minissérie que estreia nesta sexta (28) na HBO, às 22 horas. Todos afetam o cotidiano dos Lyons, uma família britânica de classe média, ao longo dos próximos 15 anos.

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Emma Thompson em cena de 'Years and Years' - Divulgação

“Years and Years” começa em 2019, com a empresária Vivienne Rook (Emma Thompson, mais incisiva do que nunca) proferindo palavrões durante um debate na TV. Sua desfaçatez agrada boa parte do público. No final do episódio de estreia, já em 2024, Rook fundou um partido político para concorrer ao cargo de primeira-ministra.

A passagem desses cinco anos é pontuada por notícias: a reeleição de Trump, a morte da rainha Elizabeth 2º, a anexação da Ucrânia pela Rússia. Em 2024, também não existem mais borboletas no mundo. Curiosamente, não há nenhuma menção ao Brexit.

Enquanto isto, a família Lyons vive alguns dramas pessoais. Seus integrantes são diversos ao ponto de parecerem artificiais: há um casal inter-racial, um casal gay masculino, uma divorciada cadeirante, uma mãe solteira de um garoto birracial, uma ativista política e uma idosa bastante ativa.

Stephen (Rory Kinnear, de “Penny Dreadful”) e Celeste (T’nia Jones) são os pais de Bethany (Lydia West), a garota que se acha transumana. Daniel (Russell Tovey, de “Looking”) se casou com o namorado de longa data, mas se interessa por um refugiado ucraniano. E a cadeirante Rosie (Ruth Madeley, cadeirante na vida real) será a primeira a se empolgar pelo discurso grosseiro de Vivienne Rook.

É fácil ver em Rook uma versão de saias de Trump, ou mesmo de Jair Bolsonaro: todos se vendem como outsiders que compartilham das opiniões da maioria. A exemplo de seus pares, Rook também prega um nacionalismo paroquial: diz que está mais interessada na coleta de lixo de sua rua do que no conflito entre Israel e Palestina.

Mas a personagem também sugere uma reforma que nenhum político populista ainda teve a coragem de fazer: uma espécie de aristocracia, em que só quem passasse em um teste de QI teria direito a voto.

Escrita pelo experiente roteirista Russell T. Davies (que, entre vários outros programas, criou a série gay “Queer as Folk”), “Years and Years” mistura ficção-científica com especulação política e cataclismas globais com picuinhas domésticas. Tem tanto de “Black Mirror” quanto de “This Is Us”, a lacrimosa série americana sobre uma família levemente disfuncional.

Tampouco lhe falta ambição. Em apenas seis episódios, a minissérie quer traçar um panorama das angústias moderna. E faz jus ao que diz a idosa Muriel (Anne Reid): “é um mundo terrível, mas eu não quero perder um segundo dele”.

 

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