Erótico e maldito, Hudinilson Jr. ganha cada vez mais os holofotes

Mostras constroem panorama da obra do artista, pioneiro da performance obcecado por fotocopiar seu corpo

Clara Balbi
São Paulo

Pregos pontuam as paredes do apartamento da Bela Vista onde Hudinilson Jr. viveu até a morte, há seis anos. À sua volta, manchas amareladas, consequência da fumaça dos maços de Hollywood que o artista fumava um atrás do outro, delineiam as silhuetas dos tantos quadros que antes enchiam o espaço, do chão ao teto.

As obras foram sendo retiradas aos poucos ao longo dos últimos anos, num esforço conjunto de amigos, 
pesquisadores, curadores, parentes e a galeria do artista para organizar a sua vasta produção. A cerca de seis meses do fim do trabalho, quando ainda restam algumas dezenas de quadros pendurados, já foram catalogadas e arquivadas cerca de 2.000 obras, além de quase 200 cadernos e agendas, estima a mãe do artista, Cida Urbano.

O resultado do mutirão pode ser visto na mostra que a galeria Jaqueline Martins abriu há uma semana. Nos três andares do galpão da Vila Buaque, no centro paulistano, mais de cem obras formam um panorama da obra plástica de Hudinilson Jr.

Lá estão, por exemplo, dezenas de fotocópias de partes do próprio corpo que o transformaram num dos pioneiros da arte xerográfica do país —algumas, pouco exibidas, formam painéis enormes—, assim como seus famosos cadernos de referência, como são conhecidas as colagens em cadernos e pranchas que ele deixou às centenas no antigo apartamento, e as assemblages que ele gostava de construir com objetos achados e presenteados pelos amigos.

Aspectos menos conhecidos de sua produção também têm vez na mostra, organizada pela própria galerista. É o caso das duas únicas pinturas que aparecem na exposição, dominadas por figuras andróginas de dorso nu, ou das peças de roupa engomadas e pintadas que, até 2013, impediam suas visitas de ver o chão da sala de estar.

Hoje presente em coleções de peso, como a do MoMA, em Nova York, ou do Reina Sofía, em Madri, e prestes a ser tema de uma exposição na Pinacoteca no ano que vem, a obra Hudinilson só se descolou da pecha de marginal de maneira póstuma.

Mesmo reconhecido pela cena artística ao menos desde os tempos do coletivo de arte urbana 3Nós3, que ele formou no final da década de 1970 com Rafael França e Mario Ramiro, o mercado repelia a figura do artista, conta Martins. “Quando abri minha primeira exposição do Hudinilson, há sete anos, as pessoas falavam que pegaria mal, que os clientes se afastariam”, lembra a galerista.

“Ele procurava entrar em contato com muita gente que hoje o admira e exalta sua produção, mas tinha pouco retorno”, diz Ramiro. “O artista maldito só é academicamente louvável à distância.”

Martins afirma que um dos fatores que contribuíram para esse distanciamento foi o temperamento do paulistano. Alcoólatra e cada vez mais recluso no final da vida, ele é descrito por amigos próximos como difícil, teimoso, egocêntrico.

A obsessão com a própria figura está impressa na obra de Hudinilson Jr.. É difícil pensar em uma parte do próprio corpo que ele não tenha fotocopiado, ampliado, enquadrado. Numa entrevista há 15 anos, o artista chegou a declarar que, inspirado pelo voyeurismo de si mesmo, tinha literalmente transado com a máquina de xerox numa performance realizada no Museu de Arte Moderna, no parque Ibirapuera, em 1983.

Mais do que a própria compleição física, no entanto, é o corpo masculino o elemento central da obra de Hudinilson. Seja nos xerox ou nas colagens que criou, abundam peitorais musculosos, pelos, paus duros, além de reproduções de estátuas e colunas clássicas. A obsessão rendeu à sua obra ainda outro rótulo, a da arte homossexual, diz o artista Mario Ramiro, colega dos tempos do 3Nós3.

“Claro que a temática sexual sempre esteve presente no trabalho do Hudinilson, mas ele foi muito mais do que isso”, afirma.

“Ele foi multimídia na acepção da palavra, e sempre esteve à frente de seu tempo”, diz Adelaide Pontes. Responsável por artes visuais no Centro Cultural São Paulo e amiga pessoal do artista, foi ela que, junto de Ramiro e outros pesquisadores, começaram o processo de catalogação dos trabalhos dele há seis anos. 

Pontes lembra o protagonismo de Hudinilson no desenvolvimento da arte xerográfica no país e sua atuação nos primórdios da arte urbana e do grafite paulistano, além do pioneirismo nos campos da arte postal e da performance.

Ao mesmo tempo, a fixação erótica talvez explique porque Hudinilson segue relevante na história da arte nacional, opina Ramiro. “Acho que, nos tempos de neoconservadorismo atuais, a temática faz com que ele adquira uma faceta de resistência muito curiosa.” 

Além disso, acrescenta, foi só a partir da difusão de meios como a fotografia, o vídeo e a performance que o corpo retomou o protagonismo depois do longo período da abstração moderna. Para ele, hoje, é mais fácil para as pessoas se identificarem com os temas e linguagens dos trabalhos de Hudinilson.

Ainda que o cenário contemporâneo pareça mais propício à recepção dos trabalhos de Hudinilson, Martins, sua galerista, acredita que ele odiaria viver hoje. “Ele acharia tudo muito careta.” O artista era, afinal, um transgressor nato, fosse no gosto pela nudez explícita, fosse nas intervenções pela cidade que realizava em plena ditadura militar.

Agora, dona Cida, como é conhecida a mãe de Hudinilson, planeja garantir a longevidade da obra do filho com doações a coleções que já têm trabalhos dele. É o caso do MoMA e do Reina Sofía, lá fora, mas também do MAM, da Pinacoteca e do CCSP, no Brasil. Só depois, afirma, vai mandar pintar as paredes da casa.

HUDINILSON JR.

Quando: Ter a sex.: 10h às 19h. Sáb.: 12h às 17h. Até 3/8.

Onde: Galeria Jaqueline Martins (R. Dr. Cesário Mota Jr., 443, Vila Buarque)

Classificação: Livre

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