'Highlanders' do Pantanal entram em conflito com médicos em série da Netflix

'O Escolhido' mostra vilarejo sul-mato-grossense onde ninguém morre graças a líder

Everton Lopes Batista
São Paulo

A chegada de uma equipe médica para fazer uma campanha de vacinação contra o vírus da zika causa uma revolta nos moradores do pequeno município de Aguazul, cidade fictícia isolada no Pantanal de Mato Grosso do Sul.

No primeiro capítulo de "O Escolhido", novo thriller brasileiro da Netflix, assistimos a médicos sendo agredidos por quem não quer uma agulhada.

Mas o que acontece em Aguazul não deriva dos movimentos antivacina —é que, por lá, ninguém padece por doença ou acidente, todos decidem quando e como querem morrer. Esses imortais acreditam que é a fé no Escolhido, líder religioso local interpretado por Renan Tenca, que confere esse poder a eles. Medicina traz morte, escrevem os moradores na parede do posto de saúde abandonado.

A chegada do grupo de três médicos liderados por Lucia (Paloma Bernardi) perturba o isolamento da cidade e expõe um embate entre ciência e fé.

A série é baseada no drama mexicano "Niño Santo", que estreou em 2010. Os roteiristas da adaptação, Raphael Draccon e Carolina Munhóz, contam que temas como vacinação e protagonismo feminino já estavam na trama original.

"A série reflete o que acontece hoje. Nós colocamos diversas opiniões sobre vários temas, apresentamos os lados e deixamos para que o choque entre os personagens traga a reflexão", diz Draccon.

Ainda que os roteiristas considerem a imortalidade o tema principal do programa, o protagonismo feminino representado pela médica Lucia tem destaque desde as primeiras cenas, quando a personagem ouve uma declaração explicitamente machista de um de seus chefes. Na opinião de Draccon, a personagem da médica ficou maior e mais forte na adaptação.

"A mulher brasileira é forte, trabalhadora e enfrenta machismo e preconceito todos os dias sem abaixar a cabeça. A Lucia é um exemplo disso. Ela lidera outros homens e não pergunta a eles qual a decisão que deve tomar", conclui Munhóz.

Na adaptação, os autores buscaram também aproximar o conteúdo do Brasil. Foram inseridos, por exemplo, lendas sobre cobras gigantes adormecidas debaixo da terra e sons de animais que vivem na nossa mata —como o grito do macaco bugio, usado para fazer crescer o suspense em determinadas cenas.

A espinha dorsal da narrativa original, contudo, foi mantida. Mesmo assim, o diretor da adaptação, Michel Tikhomiroff ("O Negócio", de 2013), diz que procurou se distanciar da produção mexicana.

"Não queria que ficasse com a cara de ninguém, então tentei achar uma linguagem própria para a série, com regras que criei para a distância da lente na hora de filmar os atores e os movimentos de câmera, por exemplo", afirma.

Embora a trama se passe em Mato Grosso do Sul, a maior parte das gravações foram feitas em Natividade, cidade do Tocantins que fica a cerca de 220 km de Palmas.

O município com pouco mais de 9.000 habitantes e construções históricas deu a ambientação que o roteiro pedia. Segundo o diretor, a cidade permitiu intervenções, depois revertidas, em construções icônicas do lugar, como a igreja. "Foi uma parceria", diz.

Para aparecer na série como os moradores da fictícia Aguazul, parte da população de Natividade foi treinada por um preparador de elenco.

"Movimentamos também a economia da cidade. O número de restaurantes foi de um para três, para atender à equipe. A única sorveteria passou a abrir em horário estendido", lembra Tikhomiroff.

O Escohido

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