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Interesse de Foucault pela Revolução Iraniana é tema de entrevistas inéditas

Duas conversas do filósofo francês sobre a recepção de seus textos sobre o Irã são publicadas em 'O Enigma da Revolta'

Mauricio Pelegrini

O Enigma da Revolta

  • Preço R$ 50 (144. págs.)
  • Autor Michel Foucault
  • Editora n-1
  • Posfácio Christian Laval
  • Tradução Lorena Balbino

“Que sentido, para os homens que vivem no Irã, procurar, ao preço mesmo de suas vidas, essa coisa da qual nós esquecemos a possibilidade desde o Renascimento e as grandes crises do cristianismo: uma espiritualidade política. Já escuto alguns franceses rindo, mas sei que estão errados.” 

Com esse trecho, Michel Foucault finaliza o primeiro de seus textos acerca do movimento revolucionário iraniano publicado na França. Durante os anos de 1978 e 1979, milhões de iranianos insurgiram-se contra a ditadura do xá Reza Pahlavi, que tinha forte apoio dos Estados Unidos e era, na ocasião, um dos regimes mais fortemente armados do mundo. 

O filósofo francês Michel Foucault - Reprodução

De “mãos nuas”, um povo inteiro uniu-se para a derrubada do ditador; entretanto, o que se seguiu foi um regime teocrático sob a liderança do aiatolá Khomeini, que fechou completamente o país e o isolou do mundo ocidental.

Convidado pelo jornal italiano Corriere della Sera, o filósofo francês Michel Foucault, já então um dos maiores intelectuais do seu tempo, viajou com uma pequena equipe para o Irã, em setembro e novembro de 1978, onde entrevistou pessoas de diversas camadas sociais, desde operários das refinarias de petróleo até líderes religiosos, desde perseguidos políticos até burocratas do governo. 

Exercendo uma função similar à de um corresponde estrangeiro, publicou uma série de reportagens no jornal italiano, e alguns textos e entrevistas na imprensa da França. Ali, foi alvo de uma série de críticas, a maioria imerecida, pois se chegou mesmo a lhe atribuir afirmações que não eram de sua autoria. 

O filósofo preferiu então se calar, sem antes, contudo, publicar um de seus mais belos escritos, “É Inútil Revoltar-se?”, em que discute com clareza e poesia o papel do intelectual na realização de um diagnóstico do tempo presente.

Quarenta anos depois, surgem agora em tradução brasileira duas entrevistas inéditas, reunidas sob o título “O Enigma da Revolta: Entrevistas Inéditas sobre a Revolução Iraniana”. 

A primeira foi concedida a um jovem intelectual libanês, Farès Sassine, que localizou em seus arquivos fitas cassete nunca transcritas. A segunda emerge dos manuscritos deixados por Foucault e recentemente disponibilizados a pesquisadores na Biblioteca Nacional da França; foi concedida a um repórter do jornal Le Nouvel Observateur, o mesmo que havia publicado o primeiro texto iraniano de Foucault. 

Em ambas, aparece um Foucault disposto a esclarecer dúvidas e eliminar controvérsias do que havia escrito. Chega mesmo a dizer que voltará ao assunto em um trabalho acerca dos motivos que levaram os franceses a deliberadamente abordarem suas reportagens com tamanha aversão.

Segundo ele, elas contradiziam os pressupostos básicos (e islamofóbicos) desenvolvidos pelo pensamento europeu acerca das sociedades orientais —o famoso livro de Edward Said, “Orientalismo”, que descreve bem esse pensamento, é também de 1978. Avesso a polêmicas estéreis, Foucault optou então por não publicar essas entrevistas.

Vistos com a distância permitida pelo tempo, esses textos recolocam em perspectiva os conceitos produzidos pelo filósofo em sua experiência iraniana, possibilitando recuperá-los para pensar as diversas experiências insurrecionais atuais.

A ideia de espiritualidade política, assunto recorrente nas entrevistas, propõe que o homem deve se transformar, transtornar, sair da posição em que está encerrado pelos sistemas de dominação. 

Espiritualidade não é religiosidade, esclarece Foucault; é uma forma de transcender a própria experiência por meio de um trabalho ético sobre si mesmo. Ao trazer a espiritualidade para o campo da política, seria possível sonhar com outro mundo, sem as formas de governo que nos oprimem. 

Os iranianos insurretos entenderam bem que a revolução se faria primeiramente a partir desse trabalho individual. O fracasso dessa experiência não invalida que essa história sonhada ainda ressoe nos tempos atuais, que cada vez mais exigem a insurreição permanente.

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