Descrição de chapéu

Jesus and Mary Chain aplicam barulho de 1º disco em todo o show e deixam ouvidos zunindo por dias

Pouco se mexeram em cima do palco e interação com a plateia em SP se limitou ao obrigado macarrônico

João Perassolo

O Jesus and Mary Chain pós-punk que você conhece não existe —quer dizer, existe em estúdio. Ao vivo, a banda escocesa deixa a batidinha dançante tão característica do final dos anos 1980 em segundo plano, atrás da distorção de duas guitarras tocadas em volume máximo.

Esta foi a impressão que ficou do quarto show do grupo no país, nesta quinta (27) à noite, em São Paulo. 

É como se a banda dos irmãos Jim e William Reid tivesse aplicado a barulheira característica de seu primeiro disco, "Psychocandy" (1985), em todas as 20 faixas executadas no palco do Tropical Butantã.

muitas luzes no palco
Show do Jesus and Mary Chain em SP - João Perassolo/Folhapress

Assim, as guitarras radiofônicas de hits como "April Skies" e "Head On", ambas de álbuns posteriores, ganharam uma dose extra de "sujeira" ao vivo. As faixas do "Psychocandy" em si, como "In a Hole" e "The Living End", eram tão ruidosas que vão deixar os ouvidos zunindo por dias.

Isto não só é um elogio como é até esperado pelos fãs de um grupo que praticamente inventou um gênero de música, o “shoegaze”, que ficou conhecido por suas paredes de guitarras, vocais soterrados e bandas formadas por músicos introspectivos, que tocavam olhando para o chão.

O Jesus e Mary Chain tocou o tempo inteiro em uma bela iluminação colorida em contra-luz, de tal forma que era impossível enxergar os rostos dos integrantes. A interação com a plateia se limitou ao “obrigado” macarrônico dito algumas vezes pelo vocalista Jim Reid, eles emendaram uma faixa na outra e pouco se mexeram em cima do palco —o guitarrista William Reid não saiu da frente de sua pilha de amplificadores. 

A ausência de carisma, contudo, não afetou um show coeso e bem executado, da primeira à última faixa, como se a banda cumprisse com precisão uma tarefa que lhe foi passada.

Ajudou aqui a qualidade do som da casa do Butantã, que não transformava o barulho das guitarras simultâneas em uma massaroca sonora na qual se perdem as nuances. Esta foi uma surpresa positiva, porque o lugar é frequentemente criticado pela péssima qualidade do som.

É difícil apontar um momento alto da apresentação, já que a plateia —formada basicamente por quem já passou dos 30— estava sorridente e imersa em uma bolha de microfonia que conectavas às músicas umas às outras. 

Vale destacar, contudo, como foi bonito ver todo mundo levantando seus celulares e gravando vídeos para os seus queridos na hora de "Just Like Honey", que ganhou um backing vocal feminino ao vivo. A música é uma das melhores da trilha de "Lost in Translation", filme de Sofia Coppola tão melancólico quanto a banda.

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