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Artes Cênicas

Lume Teatro faz reflexão potente em estética frágil em 'Kintsugi'

Espetáculo mergulha na memória de 34 anos de história da companhia

Paulo Bio Toledo

Kintsugi, 100 Memórias

  • Quando Qui., sex. e sáb., às 21h; dom., às 18h. Até 23/6
  • Onde Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119)
  • Preço R$ 9 a R$ 30
  • Classificação 16 anos

Com o espetáculo “Kintsugi”, o Lume Teatro fala sobre a memória. Mas apesar do longo trabalho de estudos e pesquisas realizadas pela companhia em torno do assunto, a montagem dirigida pelo argentino Emílio Garcia Wehbi faz com que o tema incida sobre o próprio grupo.

Durante as duas horas de apresentação, Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini, atores do Lume há décadas, mergulham em suas lembranças privadas e na memória de 34 anos de história da companhia. Tudo acontece a partir de uma discussão interna que quase culminou no fim do coletivo fundado em 1985 por Luís Otávio Burnier.

Ao longo do espetáculo, lembranças diversas dos integrantes do grupo são evocadas. Aparecem na forma de objetos que vão se acumulando no espaço: são antigos cadernos de anotação, figurinos de espetáculos da companhia, velhos instrumentos musicais etc.

Mas não se trata de um relicário nostálgico do passado artístico do Lume. No palco, ao contrário, as memórias logo se transformam em uma montanha indistinta das coisas. 

Assistimos, na verdade, a expressão de um impasse, mostrado em cena com alta sensibilidade e qualidade reflexiva. As memórias evocam a angústia de algo que não pode mais existir, remetem a experiências há muito consumadas e já inalcançáveis.

O impasse aparece também na retomada de um procedimento estético da peça “Shi-Zen, 7 cuias”: de repente, os quatro atores começam a correr, com técnica impecável, só que sem sair do lugar. Correm com olhos fixos, obstinados, até a exaustão, mas sem avançar. O gesto parece ecoar a crise do grupo, a condição do artista na atualidade, a dificuldade de elaborar o passado e avançar sobre o presente.

Mas não se trata apenas de um impasse particular que vive a companhia. De forma sútil, o espetáculo tenta aproximar a crise do grupo à fratura histórica e social vivida pelo Brasil nos últimos anos. Um dos atores diz: “o impossível nunca pareceu tão real”, vinculando os entraves da criação estética com a ausência de perspectivas que vive o país hoje. “Como pudemos esquecer?”, pergunta uma professora diagnosticada com Alzheimer que lutou contra a ditadura e vive espantada com o quadro atual do Brasil.

Ao mesmo tempo, a montagem também quer ser um processo de aprendizagem e restauração. O grupo busca na peça um “reencontro com a dor como forma de superação”, como no kintsugi, a técnica japonesa de restaurar cerâmicas deixando visíveis as marcas de sua fratura. É preciso lembrar, olhar para trás, mas sem se deixar levar pelo passado. Ir adiante assimilando as dores e cicatrizes. A criação deste espetáculo parece ser um passo nesta direção.

Para isso, “Kintsugi” se alinha a uma tendência contemporânea do teatro que busca romper com a representação ficcional e se aproximar do “real”. Em cena, não há personagens ou narrativas fabulares. São os próprios artistas ali presentes dando depoimentos sobre si e falando diretamente para o público.
Mas, como é comum em diversos espetáculos deste tipo, uma sensação de impostura ronda a estética.

Afinal, logo fica visível o paradoxo de atores simulando a não-representação pretendida; construindo teatralmente o efeito de transposição das fronteiras do teatro.  

Em “Kintsugi” o elenco se esforça para parecer que realiza gestos e movimentos casuais. Os textos (organizados pelo premiado dramaturgo Pedro Kosovski) são ensaiados para soarem improvisados ou parecem fluxos livres do pensamento. Apesar dos atores estarem em cena falando sobre eles mesmos, tudo o que acontece ali parece ter sido milimetricamente premeditado, inclusive as elipses, os desvios do roteiro original, o espanto, as dificuldades de lembrança, o tom de conversa coloquial com o público.

A estética que busca uma maior autenticidade do discurso ganha, na verdade, um aspecto postiço. Soa como uma simulação de naturalidade. Além disso, tal formatação cria um excessivo magnetismo sobre os indivíduos e suas memórias. Com o desenrolar da peça, são eles e somente eles que se destacam como um vulcão de intimidades sobrepondo-se ao coletivo, à sociedade, aos impasses do tempo, a tudo que não sejam eles mesmos.

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