'Memorando' cria ladainha poética a partir de miudezas esquecidas

Fernando Moreira Salles relança livro escrito com Geraldo Mayrink após 26 anos da primeira edição

São Paulo

Os historiadores talvez não escrevam sobre as migalhas. Não darão bola para o fato de que, no passado, todo mundo acreditava que menino que brincava com fogo fazia xixi na cama. Que Garrincha, para explicar por que só usava o pé direito, dizia: "Se eu chutar com os dois, eu caio". Ou que o urso, mascote da sapataria, morria de calor em Copacabana.

Mas é de fragmentos assim que é feito o livro "Memorando", de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles, que volta às livrarias 26 anos após o lançamento de sua primeira edição. São pedacinhos de lembranças que tentam reconstituir o que viveu uma geração que passou a juventude no Rio de Janeiro entre os anos 1950 e 1970.

Moreira Salles, 73, resolveu acrescentar memórias à nova edição. Diz esperar que cada fragmento seja uma madeleine para o leitor, em referência ao bolinho que faz o protagonista de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, recordar sua infância. O romance do autor francês tem como seu principal tema a ideia de que o passado não pode ser resgatado pelo intelecto. Isso só poderia se dar involuntariamente.

"É um exercício despretensioso sobre a memória, mas não é um exercício nostálgico. É a história de uma geração num espaço carioca e um pouco paulista", diz Moreira Salles.

"Memorando" é inspirado em "Je Me Souviens" (eu me lembro), livro de Georges Perec, membro do grupo literário Oulipo e um dos precursores do chamado nouveau roman, escola francesa de literatura experimental —Perec, por exemplo, escreveu um romance inteiro sem a letra "e", a mais comum no francês.

O resultado é que cada fragmento começa com a frase "eu me lembro", como se fosse uma ladainha poética.

"Tem migalhas que a gente aprendeu a esquecer, mas que eventualmente podem contar uma parte recôndita do que fez dessa geração um pouco o que ela é", afirma Moreira Salles.

Mayrink, escritor e jornalista com passagens por diversos veículos, morreu em 2009 —os dois foram amigos até o fim da vida. As novas gerações talvez o conheçam pelo vídeo, disponível no YouTube, de um episódio do programa Vox Populi, em 1972. Nele, Caetano Veloso se irrita com uma pergunta do jornalista e o xinga de burro.

Moreira Salles teve passagens pelo jornalismo, como quando editou a revista Istoé, nos anos 1980, e quando foi resenhista de livros da Playboy. Ele, que também é poeta, foi sócio e diretor da Companhia das Letras por cerca de 30 anos —deixou a casa no ano passado, quando a Penguin Random House comprou o controle majoritário da editora.

Ele diz que só acrescentou memórias que lembrava de ter discutido com o amigo, mas que, por qualquer motivo, não haviam entrado na edição final da obra. Os dois se encontravam em restaurantes de São Paulo para discutir o que incluir —em 1995, virou um monólogo interpretado por Irene Ravache, com direção de Ulysses Cruz.

"Olhar a realidade que gente carrega e, às vezes, machuca é difícil se você estiver olhando aquele fulgor de frente", diz Moreira Salles. "A migalha, aquilo que você esqueceu nos bancos da escola, a cançãozinha que você cantava com os amigos e de repente faz lembrar que a infância não é uma coisa tão alegre e divertida —a gente tenta trazer isso."


Memorando

Autores: Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles. Ed. Companhia das Letras. R$ 42,90 (88 págs.). Lançamento: qui. (13), às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, av. Brigadeiro Faria Lima, 2.232, São Paulo, tel. (11) 3030-3310

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