Mostra de Alexandre Wollner apresenta design extraído da natureza

Exposição examina a anatomia dos traços do pioneiro do desenho gráfico no país

FRANCESCO PERROTTA-BOSCH
São Paulo

Alexandre Wollner rejeitava ser chamado de moderno. O designer encarnava o espírito da modernidade no seu sentido iluminista, buscando a razão a partir de um olhar atento aos fenômenos.

 


Sua viúva, a física Lais Wollner, lembra que o designer morto no ano passado vivia “vendo e fazendo”. “Relacionava estruturas, formas e significados, sempre observando o comportamento da natureza —o equilíbrio, a harmonia e seu segredo implícito: a estruturação modulada proporcional.”

O design Alexandre Wollner, sentado em uma poltrona em sua casa. Ao fundo, há estantes com livros e cartazes que ele fez para a Bienal e para as comemorações dos 400 anos de São Paulo
O design Alexandre Wollner, em sua casa, em foto de 2013 - Leticia Moreira/Folhapress


Isso está explícito, por exemplo, no seu interesse pela sequência de Fibonacci, a sucessão numérica que representa o padrão de crescimento de elementos na natureza, uma progressão de números ilustrada como espiral que se expande em “proporção áurea”.


A abstração e a matriz concretista de seus projetos gráficos resultam, portanto, da busca pela quintessência das formas naturais.


Esta é uma das deduções possíveis de serem feitas a partir da retrospectiva sobre Wollner, agora no Museu da Casa Brasileira. Inédita no Brasil, a mostra organizada pelo alemão Klaus Klemp foi montada há 
cinco anos em Frankfurt.


Wollner é um personagem inescapável na história do design no Brasil. Foi pioneiro já nos estudos na década de 1950 no Instituto de Arte Contemporânea do Masp, uma das primeiras iniciativas do ensino de desenho industrial no país.


Nesse primeiro momento da carreira, ele fez os cartazes do 1º Festival Internacional de Cinema do Brasil e o logotipo da Cinemateca Brasileira, aposentado há pouco pela instituição.


Em 1953, Pietro Maria Bardi, diretor do Masp, indicou o designer para a Escola Superior de Design em Ulm, na Alemanha —na verdade, a primeira indicação de Bardi foi Geraldo de Barros, que não aceitou por estar recém-casado. A mítica instituição estabeleceu um paradigma, até os dias atuais, de metodologia de ensino de design gráfico e de objetos utilitários.


Lá, Wollner foi recebido pelo seu diretor Max Bill, o grande premiado da primeira Bienal de São Paulo, em 1951. Na mostra, há várias fotografias do brasileiro na escola junto a figuras de peso, como Otl Aicher, Josef Albers, Max Bense e Johannes Itten.


Ao retornar ao Brasil em 1958, Wollner fundou a Forminform, primeiro escritório de design gráfico do país, em sociedade com Geraldo de Barros, Ruben Martins e Walter Macedo.


É o período em que ele passa a se dedicar à criação de marcas como a das sardinhas Coqueiro, em 1958, a do banco Itaú, em 1970, e a da Eucatex, em 1967. 


Há décadas pertencentes à cultura visual das cidades e mercados brasileiros, dezenas desses desenhos criados por Wollner ocupam o jardim do museu. São apresentados em leves displays espalhados pelo gramado. Eles trazem, na frente, as marcas impressas e, na parte de trás, alguns textos com as descrições técnicas dos projetos.


Wollner, aliás, não se atinha à criação de um logo para a fachada ou rótulo de determinado produto. Ele desenvolvia a identidade visual a ser aplicada em toda a cultura produtiva de uma empresa, tanto para usos internos quanto para apresentação pública. 


Na exposição, isso fica evidente nos manuais de implementação que criou para marcas como a Klabin e o Infoglobo.


Outro momento notável na carreira de Wollner é a fundação da Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, em 1963, com o designer Karl Heinz Bergmiller. Eles importaram de Ulm o 
modelo de aprendizado. 


Na década que passou ligado à instituição carioca, defendeu a pesquisa utilitária voltada à aplicação em empresas brasileiras —seu rompimento com a escola se deu quando a engenheira Carmen Portinho incorporou as artes visuais ao currículo.

 


Da Alemanha, Wollner trouxe também um rigor e precisão formal ímpar. Isso e sua erudição ficam patentes nos depoimentos dados ao designer André Stolarski no documentário “Alexandre Wollner e a Formação do Design Moderno no Brasil”, agora em exibição na mostra. 


Na versão paulistana da exposição, também foram incluídos cartazes —originais e reimpressões— e as últimas gravuras feitas por Wollner, quando retomou já bem no fim da vida a atividade de artista.


O diretor técnico do museu, Giancarlo Latorraca, que trabalhou com Wollner quando o designer integrava o comitê da instituição, ressalta que o material exposto agora, com peças criadas pelo designer e itens de seu acervo, é possível ver o processo criativo por trás de seus maiores trabalhos.


ALEXANDRE WOLLNER

Quando: Ter. a dom.: 10h às 18h. Até 25/8.

Onde: Museu da Casa Brasileira - av. Brig. Faria Lima, 2.705,

Quanto: R$ 10

Mais informações:  ​tel. (11) 3032-3727

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