Descrição de chapéu

Muita calma ao apontar o Brasil crente de 'Divino Amor' como distopia clássica

Novo filme de Gabriel Mascaro, sobre país dominado por evangélicos, estreia nesta quinta

Anna Virginia Balloussier

A religião tem seu lugar reservado na tribuna de honra na ficção distópica, e “Divino Amor” é a prova disso, decidiram vários artigos que colaram o adjetivo neste novo filme de Gabriel Mascaro.

Mas qual o lugar da obra num clube frequentado por “O Conto da Aia”, sobre a teocracia misógina vislumbrada por Margaret Atwood, e “Submissão”, com Michel Houellebecq imaginando como seria a França sob jugo do fundamentalismo islâmico?

Todo Carnaval tem seu fim. No Brasil de 2027, a maior  celebração popular é a festa do Amor Supremo, uma rave em que o único entorpecente é a oração. Já o Estado não engana ninguém. Pode se dizer laico, mas todo mundo sabe que a fé é que manda no pedaço. A evangélica, para ser mais específico.

A escrivã de cartório faz apelos morais a casais atrás do divórcio, e o detector na porta do estabelecimento público apita se passa uma grávida, mesmo aquela no comecinho da gestação —espécie de teste de farmácia sem xixi envolvido. Seu letreiro eletrônico exibe então mensagens antiaborto, para que nenhuma mamãe pense besteira.

Todo fim tem seu começo. O Brasil de 2019, com a aterrissagem de Jair Messias Bolsonaro na Presidência, é esse calabouço crente para muitos progressistas. Basta lembrar que, no feriado de Corpus Christi, ele declarou na Marcha para Jesus ser “um presidente que diz que o Estado é laico, mas ele é cristão”.

Mas e aí? Então “Divino Amor” é distopia puro sangue?

Aí é que está. Ao sinal do primeiro evangélico, boa parte da esquerda adota o discurso “corram para as montanhas”, como se essa religião fosse uma nave alienígena prestes a aniquilar a civilização como a conhecemos.

Uma autocrítica que só agora começa a ser feita, e ainda de forma tímida, é que se recusar a dialogar com 
todo um segmento, reduzindo-o ao que lhe parece ridículo, não é só injusto. É contraprodutivo.

Afasta ainda mais uma religião de maioria “PPP”, como já brincou um pastor: pobre, preta e “puta da vida”. Evangélicos não caíram no colo do bolsonarismo à toa. Muitos deles, aliás, aderiram anos antes ao lulismo com igual entusiasmo.

Eis o mérito de Mascaro: esquivar-se de julgamentos e deixar em aberto, para o espectador, se estamos diante de um Brasil utópico ou distópico. Fica a gosto do freguês.

O espectador que tende a disparar para as montanhas talvez saia com a certeza que o diretor lhe deu uma piscadela, como se dissesse: chore de rir ou só chore mesmo, crentes são toscos demais —e um perigo. Aquele tum-ti-tum gospel, o drive-thru da oração. “Eles só podem estar de brincadeira”, pode pensar.

Não estão. A apropriação de expressões a priori vistas como a antítese do conservadorismo, como a rave do filme, já existe.

Vá lá, a suruba do Senhor seria difícil encontrar por aí. E o drive-thru? “Você tem um minuto para Deus?”, dizia um cartaz da Igreja Universal que convidava fiéis motorizados a orar na garagem do templo.  ​

Ponto para Mascaro. Sua narrativa de nuances e sutilezas não o deixa cair na tentação de apresentar um retrato estereotipado dos evangélicos histéricos e dispostos a bater com uma Bíblia na cabeça de qualquer um que ousar desacreditar no Deus deles, reclamação comum no meio.

Comparam: imagina um mundo em que a classe artística fosse sobretudo conservadora, e qualquer história sobre a esquerda a mostrasse como uma festa em looping do Teatro Oficina, todos 24 horas pelados e drogados, até na fila do mercado, na sala de espera do médico.

Em distopias mais tradicionais, como “Conto de Aia” ou “Submissão”, só os mais extremistas veriam ali qualquer espécie de salvação.

Mas a vida real é mais complexa, e o cinema de Mascaro não se põe como dono da verdade —aquele tipo de certeza que o espectador encontra pronta pra consumo, um mero fast-food para a alma. “Divino Amor”, de certa forma, espelha sua estética ao mesmo tempo fluorescente e soturna. Apresenta um futuro brilhante para muitos e sombrio para outros tantos.
 

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