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Livros

Obra de Agustina Bessa-Luís é tratado filosófico universal a respeito da natureza humana

Escritora portuguesa morreu nesta segunda (3) aos 96 anos

João Pereira Coutinho

​Quando eu olho para o século 20 português, três nomes brilham no meu panteão: Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís e José Cardoso Pires.

E não deixa de ser irônico saber que Agustina não morria de amores por Pessoa e que Cardoso Pires não gostava de Agustina. 

 

Inevitável: os gênios reconhecem-se e, nesse reconhecimento, afastam-se.

Para o leitor, é indiferente: a obra é tudo que interessa. E a obra de Agustina, escritora portuguesa morta nesta segunda (3), aos 96 anos, depois de 13 anos de doença prolongada devido a um acidente vascular cerebral, é um caso de excelência que o país celebra com uma unanimidade nunca vista. Nem sempre assim foi. “Os portugueses preferem as meias tintas, a conciliação”, disse ela em entrevista. “Eu gosto de me demarcar pela insubmissão.”

Agustina foi uma insubmissa. Isso significou, na análise da sua biógrafa Isabel Rio Novo, ter começado a sua carreira sem prestar vassalagem às figuras pálidas do neorrealismo português. Pelo contrário: depois de três livros promissores —“Mundo Fechado” (1949), “Os Super-Homens” (1950) e “Contos Impopulares” (1951)—, foi “A Sibila”, em 1954, que refundou a literatura contemporânea portuguesa, abrindo as portas para um universo de complexidade moral e modernidade linguística que Cardoso Pires, em 1968, acabaria por coroar com “O Delfim”.

Por outro lado, o fato de ser mulher —mais ainda: mulher sem estudos formais e estranha ao meio intelectual vigente— também despertou resistências que hoje nos parecem cavernícolas. Uma parte do país letrado que se curva perante Agustina na hora da morte foi aquele que, décadas atrás, olhava com sobranceria para uma escritora doméstica, coquete, inconsequente, tida por “conservadora” ou até “reacionária”.

Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa nasceu a 15 de outubro de 1922 em Amarante, uma cidade rural nas margens do rio Tâmega, a uns 60 quilômetros do Porto. Ali cresceu e foi educada, aprendendo a ler com precocidade assinalável (aos quatro anos) e fazendo da leitura (e, posteriormente, da escrita) a sua vida.

Na infância, viajou com Júlio Verne à volta do mundo e desceu com ele até ao fundo do mar. Depois, nesse “cursus honorum” solitário mas precioso encontrou os autores franceses (como Diderot ou Flaubert) e sobretudo os russos (como Dostoiévski, que amava). Sobre todos eles —no gosto pela ironia, na vitalidade romanesca e até na polêmica bem medida— pairava Camilo Castelo Branco, uma das suas maiores influências.

Segura da sua vocação literária e cansada da “solteirice”, em 1944 publicaria um anúncio pessoal em jornal do Porto no qual se apresentava como uma “jovem instruída” em busca de uma “pessoa inteligente e culta”.

Casaria no ano seguinte com o primeiro dos seus correspondentes, o advogado Alberto Luís, morto em 2017, que velou até ao fim pela sua obra, até nos aspectos mais rotineiros: comprava-lhe os livros de que precisava para escrever e, claro, datilografava os manuscritos.

Mas seria em 1954, com “A Sibila”, que Agustina nasceria para a eternidade. Na história de Quina, a “sibila” do título que concentra em si poderes proféticos, Agustina esculpia uma personagem estoica que, em nome da tradição e da terra, sacrifica o “leite da ternura humana”.

É uma prosa torrencial, majestosa, na qual o gosto pelo aforismo e pelo paradoxo estão já presentes como marca de um estilo e de um caráter. 

Essas qualidades seriam vertidas em romances (mais de 40), peças de teatro, crônicas, ensaios, textos autobiográficos, histórias infantojuvenis, roteiros para cinema (com Manoel de Oliveira ao leme) e até literatura de viagens.

Uma dessas viagens foi ao Brasil, em 1988. O resultado, contido no seu “Breviário do Brasil” (publicado pela Tinta da China), é uma meditação fascinante sobre o povo brasileiro, a sua literatura, as suas paisagens e até as suas cidades: São Paulo, por exemplo, tem “todas as desvantagens de Calcutá e sem as vantagens de Tóquio”.

A obra de Agustina, incomparável e inclassificável, concentra-se no mundo rural da região do Douro para se erguer como um tratado filosófico universal sobre a natureza humana: um teatro caótico, pulsional, destrutivo, que a autora vai descrevendo e comentando como se não fosse parte deste planeta.

E, de fato, não era.

João Pereira Coutinho

Escritor português, doutor em ciência política e colunista da Folha

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