Descrição de chapéu Artes Cênicas

Ópera de ficção científica, a primeira com um toque de telefone, estreia em SP

Do tcheco Janácek, 'O Caso Makropulos' traz reflexão sobre o envelhecimento e a arte

Úrsula Passos
São Paulo

Emilia Marty é uma mulher um pouco estranha. A famosa cantora aparece no meio de uma disputa de herdeiros e parece saber muito sobre acontecimentos antigos, de mais de cem anos atrás. Emilia, que na verdade já teve outros nomes, todos com as iniciais E e M, é também Elina Makropulos, e tem mais de 300 anos.

Essa é a personagem principal de “O Caso Makropulos”, ópera de 1926 do tcheco Leoš Janáček, que estreia nesta sexta (14) no Theatro São Pedro. A obra tem toques de fantasia e ficção científica.

Na história baseada em peça do escritor tcheco Karel Čapek —criador da palavra robô— a diva cantora com ares de Gloria Swanson em “Crepúsculo dos Deuses” tomou uma poção mágica feita pelo seu pai que lhe garantiria a imortalidade.

Ela vai se intrometer na disputa hereditária em busca justamente da receita do tal elixir, pois, ao fim e ao cabo, a magia tem uma data de validade, e precisa ser refeita.

“Essa é uma obra muito ligada a um texto moderno, a uma linguagem que tem a ver com a fala. É uma ópera pouco comum, e a música é deslumbrante”, explica o diretor cênico André Heller-Lopes.

A soprano brasileira Eliane Coelho, ela mesma uma grande diva da voz, é quem vive Makropulos. Coelho construiu carreira de mais de 30 anos na Europa e é um dos nomes mais importantes entre cantores líricos do país, tendo se apresentado em papéis principais, como Salomé ou Madame Butterfly, nos mais importantes teatros de ópera do mundo.

A ópera de Janáček —a primeira na história, a título de curiosidade, na qual figura o toque de um telefone— é uma reflexão sobre a vida, o envelhecimento e a arte. “Makropulos sabe fazer o máximo da arte, mas perdeu a alma. A trama contrapõe isso: do que adianta viver 300 anos se você perdeu a capacidade de amar?”, diz Heller-Lopes.

O diretor artístico do Theatro Municipal do Rio já trabalhou em outras obras do compositor tcheco morto em 1928, como o ciclo de canções “Diário de um Desaparecido”, e as óperas “Jenufa” e “Kátia Kabanová”, que esteve no palco da Barra Funda no ano passado.

Ele também foi o responsável pela montagem grandiosa de “Turandot”, de Puccini, que fechou o 2018 do Municipal paulistano.

O encenador tem uma agenda cheia. Só neste ano fez um “Don Giovanni”, de Mozart, ambientado num hospital psiquiátrico com ares de Bispo do Rosário, na Polônia, e uma “Aída”, de Verdi, na Alemanha. Para celebrar os 110 anos do teatro carioca, ele encena a partir do dia 14 de julho a ópera “Fausto”, do francês Charles Gounod, já montada em Manaus.

Ele diz que, com a crise do estado do Rio de Janeiro, o teatro teve de se comprometer com uma temporada “prudente”. “Essa coisa de fingir que estamos num passado chique, de achar que Maria Callas vai entrar pela porta, não funciona. Para os bastidores não há fantasia.”

Ele defende que as produções pudessem fazer turnês, ou seja, que uma ópera montada em São Paulo, por exemplo, para a qual já foram feitos ensaios, cenários e figurinos, pudesse ser encenada em outras cidades do Brasil e da América Latina.

“Ópera é indústria cultural, tem que ter resultado, não faço ópera para duas ou três pessoas verem e acharem bonito”, diz o diretor que começou no ramo a partir do canto, como tenor.

“Pode-se enlouquecer e fazer uma coisa caríssima ou não, se você tem bom senso”, diz ele quando abordamos o assunto dos cortes de patrocínio e na lei Rouanet.

“Não dá para pensar que fazer uma ópera custe R$ 3 milhões. Vamos parar com isso. Ópera nem de longe é R$ 1 milhão”, diz ele.

“A ópera é muito mais barata que o musical [de se fazer], mas as pessoas deviam vir ver ópera, porque muito das coisas de que elas gostam nos musicais está na ópera. O que as pessoas apreciam em ‘O Fantasma da Ópera’ é a ópera, são as melodias à la Puccini, a espetacularidade”, diz. “A ópera é algo extremamente popular, mas se vende um pacote de que é elitista, careta.”

O Caso Makropulos
Theatro São Pedro, rua Barra Funda, 161, sex. (14), às 20h, dom. (16) e dias 19, 21 e 23 de junho, às 20h. 12 anos. De R$ 30 a R$ 80. Ingressos na bilheteria ou no site
 

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