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Reality que caça talentos para o teatro musical leva fãs do estilo aos berros

Programa da Cultura com Claudia Raia no júri tem gravações lotadas, com gente sentada até no chão

São Paulo

Marcada para as 12h30, a gravação da primeira semifinal de “Cultura, o Musical” atrasou mais de uma hora. O motivo era excesso de público —cerca de 600 pessoas, bem mais do que comporta o Teatro Franco Zampari, no bairro paulistano da Luz. A produção até providenciou dezenas de cadeiras a mais, mas alguns ainda se sentaram no chão.

“Nunca esperamos tanta gente”, dizia o diretor José Roberto Walker —também responsável, entre outras atrações da TV Cultura, por “Prelúdio”, um concurso entre jovens talentos da música erudita. “Nem que tivéssemos candidatos tão bons. Alguns nunca pisaram no palco, e já se apresentam como profissionais.”

No ar desde o início de abril, “Cultura, o Musical” tem estrutura semelhante à de outros shows de calouros. Seu diferencial está nos próprios candidatos —atores de teatro musical. Além de cantar, eles também 
precisam atuar e —muitas vezes — dançar. A maioria tem menos de 25 anos.

“É uma garotada muito misturada, vinda de todo o Brasil. Alguns são de classe alta, outros são de famílias muito pobres. Mas o nível é altíssimo.”

De fato, as performances são impressionantes. Tanto que, nas duas semifinais a que este repórter assistiu, o júri teve dificuldade em escolher três finalistas entre os seis concorrentes que se apresentaram de cada vez. Em um dos programas, ocorreu um empate, e quatro candidatos acabaram se classificando.
Décadas atrás, faltavam nomes para esse gênero de espetáculo no Brasil.

Em 1972, Paulo Autran protagonizou a versão brasileira de “O Homem de La Mancha” declamando as letras das canções.

Isso mudou de 20 anos para cá, quando sucessos da Broadway passaram a ser montados com frequência no país. O movimento se acelerou nos últimos tempos, graças à internet. Muitos dos jovens que competem no “Cultura, o Musical” aprenderam suas músicas com vídeos no YouTube.

“Eu vivi para ver isso, eu choro toda vez”, dizia Claudia Raia, emocionada. Uma das juradas das semifinais, a estrela da Globo talvez seja o maior nome do teatro musical brasileiro —além de mulher do apresentador do programa, o também ator Jarbas Homem de Mello

“Mas não é fácil julgar ninguém”, completa a atriz, que também está no júri do “Show dos Famosos”, quadro do “Domingão do Faustão”. “Nós só julgamos o dia em que o candidato está. E neste dia ele está sempre muito frágil. Não é o melhor momento do artista. Nós sabemos, porque já passamos por isso.”

Raia também se encanta com a desenvoltura do marido, que estreia como animador de auditório. “Ele é impressionante, faz tudo sem teleprompter, é um showman.” Lisonjeado, Homem de Mello conta que chegou a gravar o piloto de um programa sobre teatro na própria Cultura, mas o projeto não vingou.
Quando soube de “Cultura, o Musical”, pediu para fazer um teste —e foi aprovado.

Os puristas podem reclamar que falta brasilidade ao programa. São poucas as composições nacionais no repertório escolhido, e algumas são interpretadas em inglês. Mas é inegável que já existe um público voraz pelo teatro musical, que não se incomoda com os termos técnicos usados pelos jurados nem se furta de berrar por seus favoritos.

“Há um mercado efetivo, que dá sustento a centenas de famílias e movimenta o entorno dos teatros”, ressalta Claudia Raia. “O governo precisa reconhecer isso”, ela conclui, lembrando as mudanças feitas na Lei Rouanet. “Teatro musical custa caro, não se paga só com a bilheteria —até porque, no Brasil, 80% da plateia tem direito à meia entrada.”

Por outro lado, ainda bem que essa plateia não para de crescer.

Cultura, O Musical
Novos episódios aos domingos, às 11h, com reprises aos sábados, às 18h45, na TV Cultura. Até 15/6

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