Reciclando fórmulas, Walcyr Carrasco conquista a audiência perdida pelos folhetins

Na primeira semana, a novela 'A Dona do Pedaço' só não superou 'Amor à Vida', de 2013

Maria da Paz ( Juliana Paes )
A atriz Juliana Paes como Maria da Paz em cena da novela 'A Dona do Pedaço' - Divulgação
São Paulo

Se Maria da Paz tem o requinte exagerado de uma Viúva Porcina, de “Roque Santeiro” e se a relação com a filha Josiane (Agatha Moreira) traz algo dos problemas que a ambiciosa Maria de Fátima rendeu à mãe, Raquel, em “Vale Tudo”, pode apostar que em “A Dona do Pedaço”, mais do que nunca, Walcyr Carrasco entendeu que copiar é preciso.

A nova novela das nove da Globo até aqui não poupou menções diretas a sucessos do cinema, da TV e do teatro. E não fez isso à toa. Para alavancar a audiência no horário, esmaecida pela trama da antecessora, “O Sétimo Guardião”, Carrasco revigorou a fórmula que diz valer a pena revisitar os clássicos com afinco.

O romance entre Maria da Paz e Amadeu (Marcos Palmeira) tem um tanto de “Romeu e Julieta”, peça de Shakespeare já revista em “Pedra sobre Pedra”. As primeiras semanas da novela mostram a inimizade entre as famílias dos mocinhos, que sofrem as consequências da desavença e acabam separados.

Houve nos primeiros capítulos uma atmosfera de faroeste, com uma cena forte em que a personagem Dulce, vivida por Fernanda Montenegro, mata vários membros de uma família e depois incendeia a casa onde eles moram. Na cena, um cavalo passa diante do fogaréu, ele próprio pegando fogo.

A estratégia de reviver hits deu certo. Embora o primeiro capítulo tenha tido audiência menor do que a de “O Sétimo Guardião” (31,9 contra 33,3 pontos na Grande São Paulo, segundo dados da Kantar Ibope Media), a novela cresceu e a média dos seis primeiros dias fechou maior (31,4 contra 28,8 de “O Sétimo Guardião”) —sendo que cada ponto equivale a 200.766 pessoas.

Com o resultado, a novela tem o melhor desempenho para a primeira semana desde 2013 —“Amor à Vida”, também de Carrasco, com 34 pontos.

O autor acredita ser um artista intuitivo, mas também atribui seus sucessos a um interesse pessoal sobre as mitologias. Ele cita a Bíblia, mais especificamente a fábula do belo José, escravo de Potifar, que recusa as investidas da mulher de seu amo. Ela acaba rasgando suas próprias roupas para acusá-lo de abuso. 

“Essa mulher, uma vilã que acusa o cara de a querer à força, quantas vezes você já não viu essa personagem em novelas atuais, no cinema, na literatura?”, questiona Carrasco. 

Na visão dele, ela é um “mito vivo” desde antes de Cristo e “que continua conversando com a gente”. Diz que a mulher que se vinga quando rejeitada é algo comum “inclusive nos tribunais, nos casos de separação”.

A declaração veio depois de três horas que o autor passou dando autógrafos, no lançamento de seu livro de poemas “Sobre a Capacidade de Amar e Outros Assuntos Poéticos”, num shopping em São Paulo.

Carrasco também conjuga à trama da novela situações bem mais contemporâneas, e aí o que conta na seleção de temas é a “a intuição mesmo”, além do olhar de um observador hoje obcecado com a internet e as redes sociais. 

A fútil Josiane, por exemplo, já expressou interesse em se tornar celebridade virtual. E ainda há na trama Kim (Monica Iozzi), uma “coach” de influenciadores digitais. Carrasco conhece alguns profissionais do ramo, e cita as qualidades que deram a esses seus amigos algum gosto do sucesso.

Diz também que não deixará de fora críticas mais pontuais. “Existe aquela pessoa que acontece na internet por um talento específico. E  há aquelas pessoas que querem sucesso artificialmente, caso da Josiane”, conta. “Ela vai comprar seguidores e curtidas para suas publicações. Vou contar tudo isso, vou escancarar, porque isso acontece”, afirma.

Personagens mascarados parecem encantar o autor. No livro recém-lançado pela editora Planeta, dedicado “a todos meus seguidores no Instagram”, ele escreve “era minha melhor amiga/ até eu descobrir:/ela mente/como respira”. Questionado, Carrasco diz que, sim, essa pessoa existe.

Na novela, ele também investe em um retrato que comumente a televisão faz dos pobres, dando a eles nomes de padrões modificados. Além de Josiane —que, como a velha Maria de Fátima em “Vale Tudo”, odeia o próprio nome—, temos Rock, Rarisson, Agno. Este último, no site Nomeschiques.com é designado como de origem grega. 

“Você não sabe o que eu sofro. A Globo tem uma lista de nomes que já estão sendo usados em outras novelas”, conta Carrasco, sobre o processo de nomear dezenas de personagens em uma única investida.

Questionado se o humor sobre nomes estranhos para pobres não seria derivado também de um olhar classista, de alguém que não faz parte daquele estrato social, Carrasco foi rápido ao dizer que não. “Meu nome é Walcyr com W, o Y eu acabei assumindo porque escreviam errado sempre. Não estou fora dessa classe porque vim de família pobre”, disse. “E nunca perdi essa minha raiz.”

Ele diz que mantém laços com seus familiares e com amigos de infância até hoje. “Esses laços me dão um senso de realidade”, fala. “O mundo da televisão e do sucesso, e eu sei que tenho sucesso, é um mundo fictício. Se a gente acreditar nele, a gente perde o melhor da gente”.

Na novela, Rarisson, que ganhou o nome em homenagem ao ator de Hollywood Harrison Ford, volta depois de ter se transformado em Britney (com interpretação da atriz Glamour Garcia). 

Carrasco quis uma atriz trans no papel de uma trans, pois, como diz, “estamos caminhando para frente”. 
“As trans precisam ocupar seu espaço na sociedade”, defende. “Até hoje, trans e travestis foram associadas à prostituição. Coloquei uma trans e compartilho uma das reivindicações do movimento LGBT, que é o de mostrar as trans em profissões que não são ligadas ao sexo. 

Em comentário sobre a recente censura do presidente Jair Bolsonaro a uma campanha publicitária do Banco do Brasil com personagens que celebravam a diversidade sexual e de raças, o autor diz achar “absurda essa censura, porque o mundo está se abrindo para a questão de gênero”. “Por que essa gente toda se importa com quem os outro transam?”, questiona. 

AUDIÊNCIA NA PRIMEIRA SEMANA DE NOVELAS DAS 21H NA GLOBO

‘Império’ (2014) 
31,7 pontos*

​‘Babilônia’ (2015) 
28,3 pontos

‘A Regra do Jogo’ (2015) 
27,1 pontos

‘Velho Chico’ (2016) 
31 pontos

‘A Lei do Amor’ (2016) 
27,5 pontos

‘A Força do Querer’ (2017)
30,5 pontos

‘O Outro Lado do Paraíso’ (2017)
31 pontos 

‘Segundo Sol’ (2018)
31 pontos 

‘O Sétimo Guardião’ (2018) 
28,8 pontos 

‘A Dona do Pedaço’ (2019) 
31,4 pontos

*cada ponto equivale a 200.766 indivíduos
Fonte: Kantar Ibope na Grande São Paulo

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