Sem novidade, mostra em Nova York suaviza tensões na obra de Mapplethorpe

Exposição se limita a interrogar como as imagens de corpos negros nus e sexo explícito são vistas no contexto atual

Nathalia Lavigne

Implicit Tensions: Mapplethorpe Now

Não há muito a ser descoberto sobre Robert Mapplethorpe a partir de sua retrospectiva mais recente, organizada pelo Guggenheim, em Nova York. O fato de ter sido tema de tantas exposições nos últimos anos talvez colabore para a impressão de que tudo ali já foi visto em algum lugar não faz muito tempo —embora o conjunto reunido, com imagens de 1970 a 1988 do acervo do museu, contemple o principal de sua breve carreira.​
 

Três décadas depois da morte do artista americano, vítima de complicações relacionadas ao HIV, “Implicit Tensions: Mapplethorpe Now” se limita mais a interrogar como sua produção é vista no contexto atual do que a apresentar novas leituras.
 
De que maneira as fotos de corpos negros nus em formas que lembram esculturas clássicas, apontados como objeto de fetichização, são recebidas hoje, com tantas mudanças nas discussões identitárias? As imagens de sexo explícito e sadomasoquismo do submundo gay de Nova York, atacadas tanto por conservadores e parte do movimento feminista, ainda podem causar polêmicas desse alcance na era Trump?

Hoje um dos nomes mais fundamentais na arte dos últimos 50 anos, responsável por inserir a fotografia em outro patamar de importância e valores, Mapplethorpe sempre teve uma recepção controversa —e as tensões causadas não eram exatamente implícitas.

Um dos episódios mais conhecidos foi logo após sua morte, em 1989, com o cancelamento da retrospectiva "The Perfect Moment" em Washington, rendendo discursos acalorados de conservadores no Congresso americano e uma discussão sobre o uso do dinheiro público para financiar mostras com conteúdo considerado pornográfico, impactando numa redução do orçamento para o setor artístico (qualquer semelhança com o atual contexto brasileiro de censura a exposições 30 anos depois é mero anacronismo).

A série de fotos com homens negros, publicada no livro "Black Book" (1986), também foi alvo de críticas como do teórico de estudos culturais Kobena Mercer, que viu nas imagens um caso clássico de fetichismo racial —apesar do autor ter reconsiderado alguns dos argumentos após a censura à obra do artista.

Outra polêmica envolveu Judith Butler, que escreveu um artigo nos anos 1990 criticando uma parte do movimento feminista por se posicionarem também a favor da censura das fotos de Mapplethorpe no "X Portfolio".

Embora não sejam mencionados diretamente, tais episódios estão nas entrelinhas da atual exposição no Guggenheim, que parece evitar trazer novas polêmicas sobre o artista. A montagem é bastante sutil, deixando o conteúdo explícito para salas separadas ao final, mas inserindo de forma inteligente uma ou outra imagem sugestiva em meio a outras mais convencionais.

A estratégia foi usada também pelo próprio artista, como nos dois autorretratos feitos para o convite de duas exposições simultâneas em 1977 —uma em uma galeria comercial e a outra no The Kitchen, um espaço independente. Em ambas, ele fotografa a própria mão escrevendo a palavra “Pictures” em um pedaço de papel —na primeira, com o detalhe da manga de camisa social, na segunda, vestindo uma luva de couro preta com os dedos à mostra e um bracelete no punho, acessórios do universo sadomasoquista.

Um dos gêneros mais explorados por Mapplethorpe, os autorretratos têm grande espaço na retrospectiva, conduzindo o percurso de uma seção a outra. São eles que abrem o primeiro núcleo com a clássica foto do braço na lateral e a impactante imagem em que se coloca na frente de um pentagrama invertido segurando uma metralhadora automática.

Na parte final, onde estão as cenas de nu como o famoso retrato "Man in Polyester Suit" (1980), Mapplethorpe também aparece em imagens explícitas com trajes e objetos de S&M. Para quem afirmava que o sexo e a fotografia eram formas de se perder de si mesmo por alguns instantes, colocar-se diante da câmera nesses contextos parecia um gesto essencial, a afirmação de uma identidade fluida que se reflete na multiplicidade de sua obra.

Apesar de reunir os principais momentos de Mapplethorpe —os duos com a cantora Patti Smith no início da carreira, os retratos de celebridades como Andy Warhol e Louise Bourgeois, a série com a modelo Lisa Lyon, as colagens com revistas pornográficas antes de começar a fotografar, as flores em formas fálicas— a exposição não aponta muitos caminhos para rever sua obra no contexto atual.

Em julho, o museu encerra esta e abre uma segunda parte que discute a influência de Mapplethorpe em nomes contemporâneos do acervo —embora fosse mais interessante se as duas acontecessem ao mesmo tempo.

Caso acontecesse no Brasil, uma mostra como essa, que inclui até uma cena de golden shower no núcleo sadomasoquista, certamente ganharia outras leituras no contexto de guerra cultural tardio —e seria difícil manter as tensões implícitas sugeridas pelo título.

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