Descrição de chapéu Artes Cênicas

Sexo, maçãs e louças quebradas conduzem espetáculo de malabarismo

Destaque de festival de arte circense, companhia Gandini extrapola os limites do picadeiro

Iara Biderman
São Paulo

Um jogo de chá de porcelana inglesa, 80 maçãs, duas mulheres e sete homens.

Vestidos num estilo casual chic britânico, poderiam estar indo a um pub depois do trabalho, mas a happy hour foi marcada no Teatro Anchieta, em São Paulo, onde o grupo abre agora o Festival Internacional Sesc de Circo.

Em “Smashed”, a trupe de malabares Gandini passa uma hora equilibrando frutas e louças numa coreografia de precisão matemática mesclada a cenas como a de duas mulheres engatinhando, com a maçã na boca, em frente à fileira de cadeiras dos homens.

O exibicionismo da técnica replica dinâmicas de sedução e dominação, num crescendo coreográfico em que a diversão desmorona no caos de louças espatifadas, cadeiras tombadas e restos de maçã.

Lembra trabalhos de Pina Bausch. Sean Gandini, fundador e diretor da companhia, conta que o grupo decidiu lembrar a coreógrafa alemã numa montagem logo depois da morte dela, há dez anos.

Sua companhia foi criada para fazer malabarismo com dança, mas Pina Bausch não tinha sido influência até ali. “Brincamos com o modo com que Pina joga com relações de poder ou crueldade. O lado cruel de você ter que mostrar sua superioridade técnica e o da falha”, diz ele.

A imagem de uma mulher cercada por muitos homens, recorrente e, segundo Gandini, perturbadora na obra da alemã também surgiu da própria composição do grupo.

“Muitas obras atuais são reducionistas, há mocinhos e bandidos. ‘Smashed’ trata de sexualidade e poder, mas não apresenta mensagens ou soluções. É, no máximo, retrato de um mundo destroçado.”

Talvez por isso o espetáculo pareça ainda mais relevante e controverso agora. Tanto a temática quanto o cruzamento de linguagens deixaram de ser estranhos ao mundo do circo, como mostra o festival.

“No mundo todo, o circo está indo além de suas próprias bordas, se deixando influenciar cada vez mais por dança, teatro e até cinema”, afirma Lúcia Nascimento, organizadora desta edição do evento.

Flertes com outras linguagens marcam os espetáculos. Há gags e visual do cinema mudo em “Das Cinzas Coração”, de Jéferson Rachewsky e Valquíria Cardoso. Na produção franco-belga “Strach, Canção do Medo”, uma cantora solta a voz ao mesmo tempo em que faz malabarismo.

Até a literatura aparece, em obras como “Ex Libris”, estreia da espanhola Cia Voël, em que livros delimitam o palco onde os acrobatas tentam voar e ler.

Entre os temas, as questões do feminismo surgem poderosas, em obras como as brasileiras “Inversus”, com uma dupla de acrobatas mulheres, ou “Sobre Tomates, Tamancos e Tesouras”, da palhaça paulista Mafalda Mafalda, nome artístico de Andréa Macera.

O festival também terá grupos africanos. Os números “Halka”, do Marrocos, e “African Show”, do Quênia, são exemplos do circo da região.

Smashed
Sesc Consolação - r. Dr. Vila Nova, 245, tel. (11) 3234-3000. De 13/6 a 16/6. Qui. a sáb., às 21h. Dom., às 18h. Ingr.: de R$15 a R$ 50. 12 anos. Festival completa em circos.sescsp.org.br 

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