Descrição de chapéu Flip

A 'mais literária das fotógrafas' fala na Flip sobre obra que ilustra Euclides

Maureen Bisilliat lançou livro que casa fotos que tirou no Nordeste entre 1967 e 1972 com trechos de 'Os Sertões'

Paraty (RJ)

Maureen Bisilliat, 88, admite: Euclides da Cunha, o grande homenageado desta Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), foi sua segunda opção.

Na quarta mesa desta quinta (12), esta que é "a mais literária das fotógrafas", nas palavras da mediadora e crítica Rita Palmeira, falou sobre sua relação com gigantes da literatura brasileira. Jorge Amado, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade. Conheceu todos.

Nascida na Inglaterra e radicada definitivamente no Brasil nos anos 1960, Bisilliat veio a Paraty para lançar "Sertões: Luz & Trevas", que casa fotos que tirou no Nordeste entre 1967 e 1972 com trechos do clássico de Euclides sobre a Guerra de Canudos.

A princípio ela tinha, contudo, outro autor em mente.

"Sertões - Luz & Trevas", livro que lançou em 1982 e que o IMS (Instituto Moreira Salles) reedita agora, é seu xodó. Considera-o sua obra mais atual. E queria muito, muito mesmo que Ariano Suassuna escrevesse um prefácio para ele. 

Como esse flerte começou: ficou mesmerizada por seu "Romance d'A Pedra do Reino" (1971). "Tinha momentos em que eu ria. Assim, é difícil você rir com prazer com uma obra muito poderosa", disse.

Com os retratos nordestinos em mãos, procurou Suassuna para ver se ele poderia escrever uma introdução para esse título que pretendia publicar. Coisa de 20 páginas. "Três meses depois, o Ariano telefonou e disse: 'Temos um problema'."

Empolgou-se e escreveu "um livro todo", lembra Bisilliat. Acabou optando por Euclides, que, com Suassuna e Guimarães Rosa, forma o que ela já descreveu como "o triângulo literário, místico, telúrico, mítico, sertanejo". 

Euclides morreu em 1909, baleado pelo amante da mulher após atirar nele primeiro. Mas com os outros dois a fotógrafa conviveu. 

O autor de "Grande Sertão: Veredas" assumiu em 1962, no governo João Goulart, a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras. Bisilliatcontou que ligou para o Itamaraty e pediu uma entrevista. Três ou quatro dias depois, deram o OK. 

"Naqueles dias não tinha aquele negócio de mito", afirmou, uma alfinetada à alcunha do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. "Você tinha proximidade das pessoas. Curiosamente, tinha mais liberdade. Bem, fui lá, [Guimarães] me recebeu."

 

O escritor acabou lhe passando um roteiro de onde percorrer para conhecer os cenários de sua obra máxima. 

Outro que a cativou foi Jorge Amado. "A primeira vez que [o] encontrei foi na época de ouro de Salvador. Nos anos 1950, era o ponto alto do Brasil. Jorge Amado era a Bahia, a Bahia era Jorge Amado", disse à plateia. 

"Com ele era um relaxamento, assim…", disse e pausou por segundos, à procura de palavras. "Uma familiaridade grande. A Bahia é covardia para quem gosta de fotografar, especialmente naquela época."

Bisilliat chegou à tenda principal da Flip escorada numa bengala e outro mediador do debate, o escritor Miguel Del Castillo, que cuida da biblioteca de fotografia do IMS e é curador de uma exposição com material dela. Estava só "mal da perna", mas contente de estar ali, tranquilizou a plateia.

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