Descrição de chapéu

'A Negra', de Tarsila, é esfinge que perturba boas intenções do Masp

Sem nome próprio, tela não repercute singularidades e perpetua esmaecimento da desigualdade

Marcos Pedro Rosa

Reavaliar as exclusões de raça, gênero, cultura e nacionalidade nos museus é uma demanda do mercado de exposições que o Masp toma para si. 

A exposição “Tarsila Popular” surge como justiça a uma artista mulher e brasileira, cujas obras assinalariam “a importância de uma perspectiva descolonizadora, ou resistente à dominação e submissão a temas e preceitos europeus”. 

Com isso, o curador Adriano Pedrosa diz se contrapor à historiografia e à crítica brasileiras que padeceriam de “pontos de vistas profundamente eurocêntricos e elitistas”. Com essa mostra, portanto, o Masp busca renovar a história da arte nacional, lançando luz sobre as “narrativas populares, indígenas e afro-atlânticas”.

'A Negra', obra de Tarsila do Amaral
'A Negra', obra de Tarsila do Amaral - Divulgação

A artista foi a grande dama do modernismo e não é novidade que os participantes desse movimento queriam tornar o Brasil familiar aos brasileiros, de forma que a reavaliação empreendida pelo Masp não renova a historiografia e só reafirma a missão autoimposta por aqueles intelectuais.

Essa missão, por sinal, resultou na canonização dos principais artistas conhecidos hoje —e suas criações: Portinari e seus trabalhadores, Di Cavalcanti com as mulatas, Tarsila e a negra-mãe-primitiva. 

Não à toa, são artistas brancos que pintavam figuras negras sob a interlocução de críticos e literatos —também brancos—, boa parte informados pela ideia da miscigenação que esmaecia a desigualdade racial brasileira e traçava solo comum entre negros e brancos, modelos e artistas. 

Essa dissintonia entre as obras modernistas e os interesses do Masp se expressa na confusão em torno do quadro “A Negra”, que era a primeira obra que se via ao entrar na exposição e que atesta o interesse de Tarsila pela população afrodescendente. 

Seu olhar é o de uma esfinge que não se encaixa bem entre as obras vizinhas. Alojada entre retratos, não tem nome próprio, não tem a mesma paleta, suas formas volumétricas e lisas não encontram eco 
nas outras telas, sua feição anônima não repercute a singularidade dos outros rostos.

A transubstanciação de “A Negra” em retrato dignificaria a modelo e a eternizaria sob a glória de uma produção cultural elevada, mas a mágica é frustrada pelas características das obras expostas. 

O quadro ocupa esse espaço para atestar, aos olhos das demandas de hoje, as boas intenções da artista, do Masp e do modernismo brasileiro frente ao racismo estrutural.

As telas “Abaporu” e “Antropofagia” estão no extremo oposto da exposição. Ambas são posteriores, mas constituídas por figuras humanas de formas volumétricas, curvilíneas e lisas. São alegorias.

“Abaporu” reproduz a pose do pensador com a cabeça diminuta em relação às partes do corpo que tocam o solo. Insinua que a introspecção do intelectual brasileiro é menos racional e mais corpórea, cisma que pesa sobre as dimensões humanas ligadas ao solo tropical. 

“Antropofagia” entrelaça essa imagem com a de “A Negra”. O aspecto carnal é ressaltado pelo toque entre os corpos nus. E o enorme seio, já no quadro de 1923, se deita sobre os membros agigantados, mas ele agora é de uma figura parda, da cor do “Abaporu”.

A relação entre as três obras é citada num texto afixado na parede, mas “A Negra” não pode ser vista desse lado da sala. Ela continua, estática, dando as boas-vindas aos visitantes. 

Se a obra estivesse em meio a essas alegorias da brasilidade, o seu caráter de tipologia emergiria e sua dimensão mitológica a lançaria num mundo ideal, distante do que as pessoas habitam e onde assuntos dos humanos são tratados. 

Então, o discurso de Tarsila sobre o Brasil, construído à luz do “Abaporu” e da “Antropofagia”, evidenciaria a relação colonial que o sustenta. 

Por outro lado, entre os retratos, é uma esfinge que o Masp não enfrenta e que perturba o museu, o mercado de arte modernista e todas as suas boas intenções.

Marcos Pedro Rosa é antropólogo, faz doutorado em história da arte brasileira na Unicamp

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