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Billy de 'Stranger Things' narra como se tornou vilão em nova temporada

Ator australiano Dacre Montgomer vira conduto humano em plano de destruir planeta

Brian Tallerico
The New York Times

Quando Billy Hargrove foi parar em Hawkins, Indiana, na segunda temporada de "Stranger Things", da Netflix, o momento parecia ser importante para a série. Mas depois disso ele pouco teve a fazer na temporada, além de flertar com a mãe de Mike.

Parece que isso era só o preparativo para seu papel significativo, transformador, na terceira temporada, na qual ele se torna o conduto humano para o plano maligno de destruir o mundo do vilão Mind Flayer. O ator australiano Dacre Montgomery oferece um desempenho ousado como Billy ao longo da terceira temporada, de sua possessão inicial ao seu sacrifício final, quando salva Eleven no shopping Starcourt.

Ator australiano Dacre Montgomery como Billy na terceira temporada de 'Stranger Things'
Ator australiano Dacre Montgomery como Billy na terceira temporada de 'Stranger Things' - Divulgação

Em entrevista recente, Montgomery discutiu a passagem de Billy por duas temporadas da série, falou sobre trabalhar com Millie Bobby Brown e sobre como ele "mata a quarta-feira". Abaixo, trechos editados da conversa. (Esta entrevista inclui "spoilers" sobre a terceira temporada de "Stranger Things".)

É muito agridoce interpretar um papel que certamente vai mudar sua carreira, mas vê-lo terminar tão cedo?

A coisa foi construída assim desde o início. Eu sabia ao começar que seria esse o resultado. E não acho que eu teria recebido a temporada que Billy teve se ele não estivesse morrendo. Acho que, porque eu estava a caminho da saída, recebi oportunidades maravilhosas de fazer uma gama muito ampla de coisas. Fiquei muito grato.

Como foi personificar essa figura complexa, em termos daquilo por que você passa fisicamente?

Para "Flayed Billy", pesquisei muito sobre distúrbio bipolar, múltiplas personalidades e sobre como uma das personalidades controla as demais. Nesta temporada, Billy é como um elástico que se estica cada vez mais, e tentei transmitir essa sensação com meu trabalho físico. Mas se você olhar para os meus olhos, verá o outro Billy tentando se expressar. Senti durante a temporada toda que meus olhos estavam sangrando, porque eu estava tentando expressar essa emoção, para contrapô-la ao meu lado físico. Queria tratar a coisa como uma experiência real. Acho que é por isso que a série faz tanto sucesso —está vinculada a um lado de ficção científica, mas tem uma âncora forte na humanidade.

Como ator, como você transmite uma emoção que contradiz suas ações físicas?

Não quero fazer meta-análise demais, mas acho que as pessoas vestem uma máscara ao sair de suas casas. Há um "Brian privado" e um "Brian público". Todos usamos máscaras, mesmo que apenas para mascarar nossas inseguranças. Se você ouve alguém e tenta mascarar sentimentos como a falta de confiança, ou se está sendo antagonizado ou intimidado, e tentando ser forte —aos meus olhos, você ainda é quem você é. Billy está tão distendido. Tento pensar nele como um elástico sendo estendido pelas duas pontas.

Foi muito difícil filmar a culminação?

Filmamos durante três dias e tanto Millie quanto eu perdemos a voz a cada dia, porque até que a câmera começasse a rodar corríamos pelo shopping center e gritávamos um com o outro até chorar. Ela é muito madura emocionalmente. Gosto de dar 150% quando estou no estúdio, e ela é igual. Gritamos um com o outro, falamos sobre as coisas, choramos. Foi caloroso e colaborativo, e tive sorte por contar com uma atriz capaz de oferecer todas aquelas emoções. Quando ela fala de minha mãe, é doloroso, e tínhamos de enxugar as lágrimas quando chorávamos, por causa da continuidade.

Até que ponto você e os irmãos Duffer discutiram os antecedentes de Billy, a fim de tornar tão poderoso aquele momento final com Eleven?

Dois ou três meses antes de os Duffer começarem a escrever, eles me ligaram e me perguntaram o que eu queria na temporada. Respondi que queria saber sobre a mãe biológica de Billy. É claro que não imaginava o resultado final, mas eles gostam de colaborar dessa forma. Escrevi toda uma história pregressa para o personagem, que girava em torno de uma mulher de 35 anos que era virgem e recebeu inseminação artificial. Queria explorar a conotação bíblica de ser filho de uma virgem, e como esse filho cresceria, e como isso reforçaria seu complexo de deus. É ridículo, olhando para trás, mas minha intenção era a de que, se levasse dez ideias loucas para o estúdio, o mais bacana sobre os Duffer é que ele aproveitariam uma delas. Eles talvez comentassem, "mano, você é doido, e as outras nove ideias são ridículas". Mas eu sempre tentava colaborar.

Como ator, que importância você dá aos antecedentes de um personagem?

Eu trabalho bastante com o espaço emocional do personagem, mas quero que as experiências da minha vida também sejam parte do personagem. Por exemplo, eu sofri bullying na escola. Assim, no caso de Billy, eu quis inverter a lente e examinar as inseguranças dos garotos que me intimidavam. O que tínhamos em comum?

Agora que Billy ficou para trás, como você pretende tirar vantagem do destaque que "Stranger Things" lhe deu?

Vou ser bem seletivo com o meu próximo projeto. Participei de três audições nos últimos dois anos. Vou fazer uma comédia romântica chamada "Broken Heart Gallery" (galeria dos corações partidos). Escolhi isso por dois motivos: o primeiro é que comédia é muito diferente de drama. Isso me assusta e acho que é um jeito de derrubar o ego —não posso começar a me levar a sério demais. Creio que esse seja um próximo passo importante. Por outro lado, tenho um podcast há dois anos e meio. É meio que um amálgama de poesia beat que escrevo há muito tempo, e montei em seis faixas distintas. Oito meses atrás, comecei a abordar músicos em todo o mundo para que me ajudassem a compor trilhas com as quais eu pudesse narrar meus poemas beat. Encerramos a produção há quatro dias. Foi uma experiência muito catártica.

Há pessoas que você vê como exemplo, que considere que "esse é o jeito de construir uma carreira?"

Gosto de diferentes atores por diferentes motivos. Há pessoas como Tom Cruise, que ficam sempre no topo de seu jogo, e Hugh Jackman, um dos caras mais trabalhadores de Hollywood. E há caras como Dwayne "the Rock" Johnson, que têm uma capacidade empresarial incrível, como produtores e como homens de negócios, além de suas carreiras como atores. Há pessoas que não estão sempre à disposição na mídia social, como Leonardo DiCaprio, e assim a ilusão ainda está lá quando você as vê no cinema. Creio que meu modelo seja uma combinação dessas pessoas; respeito aspectos diferentes de suas carreiras. É difícil escolher. Não gosto de copiar. Gosto de partir de coisas da minha vida, ou da carreira, ou de coisas que sou fã. Sou completamente cinéfilo. Tento assistir a tudo que posso.

Para você, importa ter uma ampla gama de interesses, em vez de se concentrar apenas no trabalho como ator?

Atuar é meu interesse, mas é uma ocupação que abre oportunidades. Concluí um estágio de design de interiores, há um ano e meio atrás. Amo culinária, e minha namorada se formou em arquitetura, o que talvez nos leve a abrir um restaurante. Como ator, o melhor conselho que já ouvi foi o de um roteirista com quem divido o apartamento quando estou em Los Angeles. Ele disse que "como freelancer, você precisa aprender a matar a quarta-feira. Você faz uma reunião na segunda, e eles entrarão em contato na sexta. Descubra como matar o tempo nesse intervalo". Tenho sorte por ser apaixonado pelo que faço, gostar mesmo muito disso. Mas matar a quarta-feira continua importante. Tenho sorte por poder fazê-lo com muitas coisas maravilhosas.

Tradução de Paulo Migliacci

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