Descrição de chapéu

Bob Dylan e Neil Young frustram plateia ao não dividirem palco

Ídolos dos anos 1960 apresentaram performances desiguais em festival londrino

Ivan Finotti

Bob Dylan

Neil Young

Sessenta e cinco mil pessoas, a maioria velhos jovens, lotaram o Hyde Park na tarde de sexta (12) para assistir a dois ídolos dos anos 1960, Bob Dylan e Neil Young. A expectativa máxima era ver os dois tocando juntos, mas isso não aconteceu.

 

Neil Young, 73, entrou no palco às 18h10 e saiu uma hora e meia depois. Dylan, 78, apareceu às 20h30, ainda sob o sol, que se põe depois das 21h no verão londrino, e se apresentou pelo mesmo tempo do colega. O canadense e o americano  dividiram igualmente o público e a imprensa britânicos.

Bob Dylan se apresenta no festival British Summer Time no Hyde Park, em Londres, Reino Unido
Bob Dylan se apresenta no festival British Summer Time no Hyde Park, em Londres, Reino Unido - Dave J Hogan/Getty Images

Enquanto Young foi imensamente aplaudido, suas músicas dançadas e letras gritadas, Dylan mais uma vez cantou daquela forma na qual ninguém reconhece suas canções. As críticas foram unânimes em reconhecer o show de Young como excelente e se dividiram no caso de Dylan.

Os jornalistas da Variety e do Express, por exemplo, elogiaram, enquanto os do Guardian e do The Independent desceram a lenha. O show que eu vi está bem mais para esses últimos do que para os primeiros.

Dylan, vestido com terno branco reluzente e chapéu preto de caubói, foi magnânimo na sua lista de canções. Abriu com “Ballad of a Thin Man” e seguiu com três clássicos —“It Ain’t Me, Babe”, “Highway 61 Revisited” e “Simple Twist of Fate”. Ainda cantou “Like a Rolling Stone” e fechou o bis com “Blowin’ in the Wind” e “It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry”.

“Girl from the North Country” foi especialmente interessante, mas no geral só se reconhecia as canções pela letra do refrão. Um dos críticos ingleses comentou que só conseguia entender uma palavra a cada cinco que Dylan cantava. Não era problema do som, que estava ótimo.

É sua voz mesmo, cada vez mais ininteligível. E sua velha tática de mudar os arranjos a ponto de nem os fãs entenderem do que se trata. O fato é que ele é adorado incondicionalmente por boa parte do público que estava ali. Isso não impediu outra parcela considerável de começar a ir embora no meio do show.

Enquanto algumas pessoas ficavam exultantes ao reconhecerem um clássico, outras comentavam que, mais do que mudar o arranjo, Dylan agora parece ter mudado as notas e os acordes de suas músicas. É como se o músico compusesse uma nova canção e usasse a letra de uma antiga preferida do público. O resultado é bizarro.

A sensação foi bem resumida por Chris Harvey, crítico do The Independent. “Ele provavelmente deveria parar.”

Neil Young foi igualmente generoso ao escolher a sua lista de canções. Ele cantou quatro músicas de seu disco mais importante, “Harvest”, de 1972, incluindo aí o seu maior sucesso, “Heart of Gold”.

E mais de seu disco de 1990, “Ragged Glory”, como “Country Home” e “Mansion on the Hill”. Fora isso, clássicos sem parar: “Everybody Knows This Is Nowhere”, “Winterlong”, “Walk On”, “Like a Hurricane”, “Rockin’ in the Free World”, “From Hank to Hendrix”. Houve espaço também para “I’ve Been Waiting for You”,  de seu primeiro disco solo.

De chapéu parecido com o de Dylan, Young estava mais à vontade, com sua eterna camisa de flanela sobre uma camiseta preta. Como Dylan, falou nada ou quase nada à plateia.

Ele tinha causado confusão após o anúncio desse show, ainda no ano passado, ao descobrir que o festival British Summer Time era patrocinado pelo banco inglês Barclays. Young, um agressivo defensor do ambiente, disse que o banco era uma entidade que lucra com a exploração de combustíveis fósseis e ameaçou cancelar sua apresentação.

A saída foi retirar todos os logotipos do Barclays do Hyde Park na sexta. Nos outros dias do festival, a marca voltou.

 
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