Descrição de chapéu Artes Cênicas

Brecht encontra hip-hop em peça sobre onda conservadora

Companhia cria analogia entre obra sobre ascensão do nazismo e Brasil atual

Clara Balbi
São Paulo

"No tempo do governo daquele que se diz enviado de Deus", bradam os atores, enquanto marcham em círculos pelo palco no prólogo de "Terror e Miséria no Terceiro Milênio - Improvisando Utopias".

Mesmo trazendo à lembrança um vídeo compartilhado nas redes sociais por Jair Bolsonaro em maio, em que um pastor afirmava que o presidente havia sido "estabelecido por Deus" para guiar o Brasil, a frase não faz referência ao atual ocupante do Alvorada, mas a Hitler. E foi escrita, com algumas poucas diferenças, nos anos 1930, numa tentativa do dramaturgo alemão Bertolt Brecht de entender a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

O texto serviu de base para a nova montagem do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, companhia precursora do teatro com hip-hop no país que agora ocupa o palco do Sesc Bom Retiro. Reduzindo as 24 cenas originais a cerca de dez, acrescentando comentários dos atores-MCs, ela busca traçar um paralelo entre o cenário descrito pelo alemão e a onda conservadora que se espalha pelo mundo hoje.

 

Mas a diretora Claudia Schapira afirma que não precisou se esforçar muito para atualizar a obra. "Já estava tudo dado", diz, ressaltando que, na maioria das cenas, são mantidas as citações ao Führer e à SA, sigla pela qual era conhecida a força paramilitar nazista.

Mesmo com o vocabulário original, não é difícil identificar o Brasil contemporâneo nos episódios. Uma cena em que oficiais do governo entregam o cadáver do filho à mãe num caixão selado, com desculpas esfarrapadas sobre a causa da morte, pode lembrar tanto as mulheres que tiveram os filhos desaparecidos na ditadura quanto a violência da operações policiais nas favelas e subúrbios brasileiros hoje. O drama de um professor que teme ser espionado por todos ao redor, inclusive o filho, remete às polêmicas do projeto Escola Sem Partido.

O papel de trovadores dos novos tempos fica a cargo dos próprios atores, que comentam as cenas recém-interpretadas, e de dois DJs. Estes, além de responsáveis pelas batidas e scratches que compõem a trilha do espetáculo, intervêm na trama ao incluírem trechos de vídeos, notícias e discursos, num processo de sampling, ou sobreposição de materiais, que está no DNA do teatro hip-hop do Bartolomeu.

Se a estratégia não é nova, também a influência de Brecht sobre a companhia é antiga. O grupo foi, afinal, forjado nas premissas do teatro épico, gênero que busca convocar os trabalhadores a intervir na realidade social ao romper com a ilusão característica do teatro. É curioso, nesse sentido, que este seja o primeiro texto do alemão encenado por eles, depois de uma série de adaptações de mitos gregos, como "Efeito Cassandra", "Antígona Recortada" e "Orfeu Mestiço".

"Entendemos que precisamos de novos mitos. E Brecht é um autor que impele os artistas a serem contemporâneos em relação ao seu tempo", diz Schapira. "Além disso, no palco, se acontecer alguma coisa amanhã, consigo modificar minha cena. Um filme ou um livro, uma vez prontos, não permitem isso."

Às vezes, no entanto, a realidade atropela a ficção. É o caso de uma cena em que um juiz precisa pensar nas consequências políticas de um parecer que elabora, sobre a invasão de uma loja judaica por dois oficiais da SA. O episódio traz à mente discussões recentes sobre a imparcialidade do Judiciário.

O tom pessimista do enredo, no entanto, às vezes cede à irreverência --ou catarse, em especial quando o ritmo do hip-hop invade o palco.

Mas onde, então, cabe o nome do espetáculo, "improvisando utopias"? "Poder refletir sobre o fascismo no teatro já é uma grande utopia", argumenta Schapira.

Teatro

Terror e Miséria no Terceiro Milênio

Drama
até R$20

Teatro e hip-hop se juntam nesta produção do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, inspirada em um texto do alemão Bertolt Brecht. Em cena, atores e DJs traçam um paralelo entre os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, contexto no qual viveu o dramaturgo, e a ascensão do fascismo no mundo atual.

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