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Livros

Coletânea reúne Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Machado e Stephen King

'Contos Clássicos de Terror' serve de menu-degustação para quem quer conhecer o gênero literário

Thales de Menezes

Contos Clássicos de Terror

  • Preço R$ 62,90 (410 págs.)
  • Autor Vários autores; org.: Julio Jeha
  • Editora Companhia das Letras

“Contos Clássicos de Terror”, coletânea selecionada por Julio Jeha, é um menu-degustação para quem quer conhecer esse gênero literário. São contos de 19 autores dos séculos 19 e 20, quase todos exemplares de ótima literatura.

Além de nomes que figuram no panteão do terror, como Edgar Allan Poe, Bram Stoker, H.P. Lovecraft e Stephen King, o volume traz autores notáveis com destaque em outros gêneros, como Joseph Conrad, Thomas Hardy, Walt Whitman e os brasileiros Machado de Assis, Lygia Fagundes Telles e João do Rio. A única crítica é a falta de informações sobre cada escritor.

George Sand, pseudônimo da baronesa francesa Amandine Aurore Lucile Dupin, abre o volume com “Espiridião”, de 1849, sobre um homem atormentado por pesadelos que procura conforto em uma igreja. É tema recorrente na autora esse embate entre o sagrado e o profano.

Um dos maiores poetas americanos, Walt Whitman alçou o verso livre a uma excelência literária. E criou contos pesados como “Morte na Sala de Aula”, de 1843, uma tortura mental imposta por um professor mesquinho a um aluno.

Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez
Machado de Assis fotografado por Marc Ferrez - Divulgação

rril do Amontillado”, de 1846, é uma história de vingança, rica em crueldade. O americano Edgar Allan Poe, morto em 1849, um dos gênios do terror, expõe logo de cara as intenções do protagonista.

Autor do clássico “O Médico e o Monstro”, R.L. Stevenson volta a ligar medicina e terror em “Ladrões de Corpos”. Um texto brilhante, mas numa narrativa sem surpresas.

Escrito em 1885, “A Causa Secreta” nunca entrará em qualquer lista séria da melhor produção de Machado de Assis. Nem é um conto de terror ortodoxo, é um estudo sarcástico sobre a dor, com personagens apenas rascunhados.

Obra-prima de terror psicológico, “A Tortura pela Esperança”, de 1883, mostra a indecisão de um condenado diante da chance de escapar, petrificado pelo medo. É do francês Villiers de L’Isle-Adam, que se dedicou ao teatro e à poesia.

Talvez o mais estranho da coletânea, “Bárbara, da Casa de Grebe” é um conto com elementos dos romances do inglês Thomas Hardy, morto em 1928, consagrado por “Tess” e “Judas, o Obscuro”. Uma leitura agradável, mas difícil de ser rotulada como “terror”.

“A Selvagem”, conto de terror sangrento passado durante uma lua de mel, é prova de que o irlandês Bram Stoker nunca produziu outra coisa que chegasse perto de seu “Drácula”, de 1897. Arrastado e confuso, tem uma conclusão absurda. 

Genial como autor de ficção científica, o britânico H.G. Wells tem incursões no terror bem melhores do que o péssimo “Pollock e o Homem do Porroh”, escrito em 1895. O conto parece o roteiro condensado de um seriado de aventuras, em que um inglês se envolve com uma tribo guerreira de Serra Leoa, com alguns elementos fantásticos.

Autor hoje pouco lido, o maranhense Coelho Neto, que viveu entre 1864 e 1934, teve imenso sucesso com publicações em folhetim. O conto “A Tapera”, com o gótico, traz encanto na história passada
em um engenho de açúcar.

Mesmo sendo um autor dedicado ao humor e ao sarcasmo, o inglês W. W. Jacobs publicou em 1902 o apavorante “A Mão do Macaco”,  sobre uma pata de macaco trazida da África que pode conceder desejos às pessoas.

Monstro sagrado da literatura e autor de obras como “Lord Jim” e “No Coração das Trevas”, o britânico de origem polonesa Joseph Conrad criou em “A Fera” um navio amaldiçoado, destinado a matar sua tripulação em incidentes bizarros.

Jornalista e prolífico escritor, João do Rio não precisou deixar a noite carioca, habitual cenário de suas ficções. “Emoções” mostra como um barão rico corrompe um trabalhador feliz no casamento, levando-o ao vício nos jogos de azar. Transformar a derrocada de um homem em terror genuíno é magistral.

Um ótimo conto deslocado na série é “O Tarn”, do britânico Hugh Walpole. Pouco conhecido no Brasil, aqui o autor explora uma trama de vingança na rivalidade entre dois amigos escritores. Um texto arrebatador, mas não é terror.

H.P. Lovecraft, o mestre que associou ideias de fantasia e ficção para renovar o gênero do terror no século 20, está presente com “Na Cripta” publicado em 1925. Está em zona de conforto com uma história apavorante de um coveiro que gosta de cometer barbaridades com cadáveres.

O escritor e jornalista maranhense Humberto de Campos é uma das surpresas do volume com “Os Olhos que Comiam Carne”. A angustiante história de um escritor que um dia acorda cego faz parte de um ótimo livro, “O Monstro e Outros Contos”, de 1932.

A americana Shirley Jackson tem narrativas sobrenaturais célebres, mas o estupendo “A Loteria”, de 1949, é um mergulho na maldade humana, com revelação surpreendente.

Final inesperado também será encontrado por quem ler “Venha Ver o Pôr do Sol” publicado em 1988 por Lygia Fagundes Telles, hoje com 96 anos. Um exercício de sutileza em narrativa sobre amores do passado que vai ganhando um lado obscuro a cada página.

A coletânea é concluída com “Vovó”, que faz parte de “Tripulação de Esqueletos”, de 1985, melhor livro de contos escrito por Stephen King. 

Incomparável na inclusão do horror em situações cotidianas, o escritor americano joga um garotinho numa espiral de medo quando ele é deixado com a avó doente e tem de cuidar dela sozinho. Uma pequena obra-prima.

Estátua de corvo em frente à casa de Edgar Allan Poe na Filadélfia - Johannes Schmitt-Tegge/AFP
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