Como a Disney fez o pequeno Simba parecer tão real no novo 'O Rei Leão'

Supervisor de efeitos visuais revela segredos usados para fazer com que o filhote de leão criado digitalmente pareça real

Mekado Murphy
The New York Times

​Enquanto o jovem Simba trabalhava para desenvolver seu rugido, no novo "O Rei Leão", os designers e animadores tinham objetivos muito maiores.

Todo os pelos do corpo do filhote, os padrões de cor detalhados de seu corpo e os movimentos de suas patinhas pela savana foram produto dos esforços de um exército de artistas de efeitos visuais com efetivos parecidos aos da turma de Pride Rock.

O diretor do filme, Jon Favreau, trabalhou com a MPC Film, uma produtora de efeitos especiais que também havia ajudado a criar os animais do projeto anterior do cineasta, "Mogli - O Menino Lobo" (2016), em detalhes de alto realismo visual. Mas ao contrário do trabalho anterior, não havia personagens humanos para atrair olhares.

"O Rei Leão" é inteiramente digital, salvo por uma tomada que os realizadores do filme se recusam a identificar. E o foco estava em tornar os animais tão familiares quanto seriam se avistados na natureza.

Como referência, os realizadores visitaram o Animal Kingdom da Disney, em Orlando, onde o departamento de ciência animal permitiu que observassem e gravassem algumas criaturas.

Mas era essencial ver os leões na natureza, e por isso a equipe de criação viajou ao Quênia a fim de observá-los e tirar fotos - mais de 12 terabytes de imagens, na verdade. Com essa informação visual, a MPC Film (divisão do grupo Technicolor) começou a esculpir.

Abaixo, detalhes de como o pequeno Simba se tornou uma presença realista na tela grande.

Ao determinar algumas das expressões e maneirismos do jovem Simba, Adam Valdez, o supervisor de efeitos visuais, se concentrou em um par de filhotes que viu na reserva de caça de Maasai Mara, no Quênia.

"Eles tinham um certo caráter", disse Valdez em entrevista por telefone, "uma energia insistente". Depois de recolher imagens dos filhotes, ele se perguntou de que maneira tornar o personagem atraente sem lhe dar cara de desenho animado, e como fazer com que as pessoas se envolvessem com ele.

Valdez e a equipe se concentraram nos detalhes específicos do focinho de um leão, mais longo que o de outros felinos. Enfatizaram a linha de proa majestosa do animal, o arco nobre do topo da fronte à ponta do nariz.

Mas também era importante oferecer caminhos para que a audiência atual conectasse o novo Simba ao do original de 1994. Isso foi feito acrescentando tufos despenteados de pelos ao topo de sua cabeça, e arredondando seus olhos um pouco mais do que seria o caso em um leão.

 

No passado um dos mais complicados desafio da animação digital, os pelos passaram por muitos avanços. Mas ainda assim é incrivelmente difícil acertá-los.

"Os artistas passaram muito tempo administrando os milhões de pelos que esses personagens apresentam, e garantindo que se movimentem da maneira correta em termos de Física", disse Valdez.

O artista desenvolvem o pelo usando os chamados "pelos guia", e estabelecendo parâmetros para sua espessura e lisura. Em seguida, um software especial usa a informação dos pelos guia para duplicá-los e para aplicá-los a todo o corpo do animal.

Eles também dispuseram um padrão digital sobre a pele. "O padrão pode ditar ao pelo que seja revolto, ou outra camada do padrão pode ditar a cada pelo que cresce naquela porção da pele que se mantenha mais próximo dos pelos vizinhos", disse Valdez.

Quanto aos tons e sombras do pelo de Simba (e das manchas em sua barriga), Valdez disse que eles também resultam de software que informa aos pelos que cor devem tomar: branco, castanho, preto. "Se você posicioná-los de modo certo, terminará com uma imagem semelhante à de um leão".

Criar um personagem atrativo é uma peça do quebra-cabeça. Fazê-lo funcionar de um modo que pareça correto é outra. Valdez disse que ele e sua equipe pensaram inicialmente que, porque um filhote de leão como Simba já era tão fofo e caloroso, seria fácil criar seus movimentos. Mas na verdade iluminar filhotes de leão fofinhos de forma que os enquadre bem ao ambiente é um processo laborioso.

E as cenas brincalhonas entre Simba e Nala filhotes, quando eles se envolvem em muita ação, como corridas e briguinhas, queriam dizer muito trabalho de animação para suas patinhas. "Às vezes eles pareciam meio desajeitados", disse Valdez. Os animadores descobriram maneiras de contornar o problema, às vezes posicionando plantas diante da câmera para bloquear certos momentos da ação.

E há a fala. "Você enfrenta um desafio a cada vez que está diante de uma forma de boca que não reproduz a forma humana", disse Valdez. Eles não queriam se ver presos em uma armadilha quando chegasse a hora de os personagens falarem.

Havia duas escolhas, segundo Valdez. Simba e os demais animais podiam resmungar, por não terem as mandíbulas articuladas para fala humana. Mas isso dificultaria que as audiências os compreendessem. Ou os movimentos da fala podiam ser simplificados, a solução que os animadores adotaram: quando os animais falam, há movimento suficiente para a acreditar que suas bocas estejam formando palavras, mas sem distrair demais a atenção.

"Na verdade, os leões têm marquinhas em torno dos olhos e bocas, e se você colocar movimento demais eles começam a parecer desenhos animados, e que seus focinhos são feitos de borracha", disse Valdez. "É um balanço muito complicado e espinhoso, nesse caso".

Tradução de Paulo Migliacci

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