Descrição de chapéu The New York Times

Como é viver na mais famosa casa de Gaudí em Barcelona

As obras do arquiteto catalão ajudaram a fazer de Barcelona um dos maiores polos turísticos da Europa

Raphael Minder
Barcelona | The New York Times

​A cada ano, mais de um milhão de pessoas visitam a casa de Ana Viladomiu em Barcelona. E ela faz o que pode para evitá-las.

Viladomiu​ vive em La Pedrera, a última casa projetada por Antonin Gaudí, o brilhante arquiteto catalão que morreu depois de ser atropelado por um bonde em 1926. As obras dele espalhadas pela cidade ajudaram a fazer de Barcelona um dos maiores polos turísticos da Europa.

Quase todos os dias, longas filas se formam diante de La Pedrera, cuja fachada de pedra ondulante e irregular faz com que o edifício se pareça com uma habitação em caverna, escavada de uma rocha maciça.

Do lado de dentro, os visitantes encontram uma edificação com características incomuns, do piso ao topo. O pátio azulejado na entrada se assemelha a uma floresta subaquática. O terraço no topo conta com chaminés em forma de capacete.

Para Viladomiu, porém, viver em La Pedrera requer lidar com algumas questões práticas, a começar por sua batalha diária para chegar ao elevador que conduz ao seu apartamento, no quarto andar.

"Já me apanhei muitas vezes tendo de abrir caminho a cotoveladas para casa; as pessoas gritam comigo achando que estou furando, a fila de compra de ingressos", ela disse em entrevista recente no seu apartamento. "Não é uma situação muito boa, especialmente se você está carregando sacolas de compras."

O apartamento mesmo é um espaço branco e arejado de 350 metros quadrados; não abriga muita mobília e ostenta grandes janelas. Ela vive lá desde a década de 1980.

Viladomiu, 63, é jornalista e se mudou para o edifício pouco depois de conhecer o marido, que alugou um dos apartamentos antes que La Pedrera fosse incorporada à lista de patrimônio cultural da humanidade da Unesco, em 1984.

Gaudí projetou o edifício como residência particular, dividida entre diversos inquilinos,

Em 1906, o projeto foi encomendado por um casal endinheirado —Roser Segimon e seu marido Pere Milà—, como sua nova residência na avenida que estava se tornando —e continua a ser— o polo comercial mais elegante da cidade, Passeig de Gracia.

Gaudí demorou seis anos para completar a construção, e depois disso o casal manteve o piso principal como moradia e alugou o espaço adicional, subdividido em 20 apartamentos.

O edifício de Gaudí, cujo nome oficial é Casa Milà, se tornou assunto quente em Barcelona antes mesmo de ser completado. Ganhou o apelido La Pedrera —a pedreira— devido à sua fachada de aparência bruta e ao seu formato assimétrico.

O projeto foi satirizado por cartunistas dos jornais e levou a disputas judiciais, entre as quais uma que envolveu Gaudí e o casal comprador. Os Milà foram por fim multados pelas autoridades porque Gaudí construiu uma casa maior do que a permitida por seu alvará.

Segimon morreu em 1964, sobrevivendo ao marido, e vendeu La Pedrera a uma imobiliária. Outro arquiteto remodelou o piso superior, na época usado como lavanderia, para criar novos apartamentos de aluguel.

Viladomiu é um dos poucos inquilinos restantes. Em março, ela publicou um livro intitulado "A Última Vizinha", sobre a história do edifício, bem como sobre a experiência de ocupar um dos últimos apartamentos em uma das joias do estilo modernista de arquitetura de Gaudí.

Uma vantagem adicional, ela diz, é que seu aluguel não subiu significativamente nas mais de três décadas em que ela vive no edifício, apesar da disparada do valor turístico de La Pedrera.

"Pagar o que pago para viver em um lugar assim extraordinário, no coração de Barcelona... seria tolice me mudar para qualquer outro lugar", ela disse, sem revelar o valor exato de seu aluguel.

Os turistas pagam 22 euros (cerca de US$ 25) para visitar La Pedrera, mas isso só dá acesso a parte do edifício, o que inclui um dos apartamentos projetados por ele.

Mas visitantes intrépidos de vez em quando ignoram os limites, o que forçou Viladomiu a criar uma barreira diante de seu apartamento, para manter os turistas sob controle.

Antes disso, ela disse, "eles batiam à minha porta constantemente, e queriam ver minha casa por dentro".

Ocasionalmente, ela abria a porta para os desconhecidos. "Quando eu via algum turista que me parecia interessante, mostrava meu apartamento", ela disse.

Viladomiu compara sua experiência a participar do reality show televisivo Big Brother: ela é fotografada por turistas sempre que sai à varanda, e monitorada pelas câmeras de segurança e detectores de fumaça, que ela já fez disparar sem querer enquanto cozinhava o jantar. "Mas é claro que estou falando de um Big Brother padrão Unesco", ela disse.

Hoje, Gaudí tem papel central nas atrações turísticas de Barcelona, e o esforço para destacar suas obras continua. O projeto mais ambicioso envolve sua obra-prima inacabada, a basílica da Sagrada Família, que estava apenas 25% concluída quando o arquiteto morreu.

Este mês, as autoridades municipais enfim concederam um alvará que permite o prosseguimento das obras, em um esforço para completar o projeto até 2026, o centenário da morte do arquiteto. Dois anos atrás, a primeira casa projetada por Gaudí em Barcelona, a Casa Vicens, se tornou um museu.

O atual caso de amor de Barcelona com Gaudí contrasta com o relativo desinteresse exibido por suas obras na década de 1980, quando  La Pedrera foi colocada à venda e encontrou dificuldades para atrair um comprador.

Por fim, o banco Caixa de Catalunya pagou 900 milhões de pesetas, o equivalente a US$ 6,2 milhões, para adquirir o edifício em 1986. A fundação do banco reformou La Pedrera, abriu o edifício a visitas por turistas, e ofereceu pagamentos aos inquilinos para deixarem o edifício.

Viladomiu e alguns outros moradores recusaram a oferta. Dois deles continuam a morar no edifício mas não aceitaram conceder entrevistas.

Gaudí inclui em La Pedrera recursos que eram novidade na época, como um elevador e água corrente em todos os apartamentos. La Pedrera também foi uma das primeiras moradias em Barcelona a ter um estacionamento subterrâneo, com 16 vagas para que os moradores estacionassem seus carros ou carruagens. A garagem se tornou auditório.

Mas Viladomiu também apontou para alguns aspectos do projeto de Gaudí que mostravam que ele priorizava a estética, incluindo seu uso extenso de superfícies curvas.

"Instalar uma estante é quase impossível, porque o apartamento não tem uma parede reta que seja", ela disse. "Gaudí tinha ideias claras e uma personalidade forte, e você precisa respeitá-las para viver aqui".

Tradução de Paulo ​Migliacci

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