Descrição de chapéu Flip

Contardo Calligaris diz que achou 'Os Sertões' intragável da primeira vez que leu

Psicanalista e escritor falou sobre literatura e psicanálise na Casa Tag

Teté Ribeiro
Paraty (RJ)

Assim que chegou ao Brasil e estava começando a tentar entender o português, o psicanalista italiano Contardo Calligaris recebeu de presente "de alguém que não gostava muito de mim uma cópia de 'Os Sertões', de Euclides da Cunha", autor homenageado da Flip deste ano.

"Não passei da primeira parte", diz ele. "Aquela descrição do cerrado é difícil em qualquer língua. Depois, alguém me deu de presente 'Feliz Ano Velho', do Marcelo Rubens Paiva, aí comecei a ler em português."

Mesa "Literatura e psicanálise" com Contardo Calligaris teve mediação de AndréŽ Araújo, na Casa TAG
Mesa "Literatura e psicanálise" com Contardo Calligaris teve mediação de AndréŽ Araújo, na Casa TAG - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Foi só quando o Teatro Oficina fez sua montagem de "Os Sertões", em 2002, dividida em três partes, que Contardo se interessou de novo pelo livro. "Não fui na primeira parte, 'A Terra', porque tinha achado o texto intragável, mas quis ver a segunda, 'O Homem', e adorei o que vi. A terceira parte, 'A Luta', era fantástica, e só depois de ver no teatro, já morando aqui há alguns anos, voltei ao livro original."

Contardo foi o primeiro convidado da Casa Tag, que tem sua primeira edição na Flip e é ligada ao clube de leitura de mesmo nome. Sua conversa teve como tema "Literatura e Psicanálise". Relançando o livro "Cartas a um Jovem Terapeuta", pela editora Planeta, o autor disse que não distingue muito seu trabalho como psicanalista do ofício de romancista. "Escrevi dois romances e quatro temporadas de uma série e tenho 40 anos de consultório. As histórias se misturam."

No livro, ele responde questões de pessoas que não são reais, "mas ao longo de minhas quatro décadas como psicanalista, as questões foram colocadas diversas vezes". "Os interlocutores são, assim, reais e imaginários ao mesmo tempo."

Já na série "Psi", que durou quatro temporadas na HBO, ele diz que o protagonista, o psicoterapeuta Carlo Antonini, tem tudo a ver com ele. "As situações da série são 15% a 20% casos da literatura, o resto são histórias minhas, reais", afirma. "E algumas situações revelam como eu gostaria de ter agido em uma ocasião específica", completa.

Ele disse também que Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, "usava sua própria história o tempo inteiro, os sonhos que ele analisou eram sonhos dele", afirma Contardo. "As histórias dos pacientes viram histórias minhas, elas se confundem com a minha história de vida."

Contardo revelou também ser um adepto da prática de "turismo psicanalítico". Quando saio de férias para ficar um tempo grande em outra cidade, procuro um terapeuta local para me analisar. "Entre isso e um guia turístico me falando 'olhe para isso, olhe para aquilo', prefiro o terapeuta."

Atualmente, Contardo tem lido muita literatura erótica escrita por mulheres francesas, britânicas e brasileiras. "Tenho essa predileção porque acho que a partir de Anaïs Nin, no começo do século 20, o romance erótico é predominantemente feminino. Depois os homens lançaram dúvidas se foram elas mesmas que escreveram. Pode não ter sido, mas foram elas que ditaram", acredita.

Sua próxima missão é lançar a palavra "boçal" como um termo técnico. "Minha tentativa lexicográfica é de defini-lo como quem tenta impor aos outros a sua moral porque não a consegue impor a si mesmo."
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