Jornalista da Folha acompanhou três shows de João Gilberto; releia

Ícone da bossa nova, cantor e compositor morreu aos 88 anos neste sábado (6), no Rio de Janeiro

São Paulo

​Sérgio Dávila, atual diretor de Redação da Folha, acompanhou e deu seu relato sobre três shows de João Gilberto em 2002, 2004 e 2008, respectivamente.

Criador da bossa nova, o cantor e compositor morreu neste sábado (6), aos 88 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi anunciada por seu filho, o produtor musical João Marcelo Gilberto, nas redes sociais.

 Leia, abaixo, cada um dos relatos na íntegra.

Uma noite com a Mona Lisa da bossa nova

João Gilberto se apresentou, por duas horas e 25 minutos, no Carnegie Hall, em Nova York, no JVC Jazz Festival

25 de junho de 2002 - O show de João Gilberto é sempre o mesmo, e isso não é uma crítica. Assistir ao inventor da bossa nova tocar, banquinho, violão, uma garrafa de água e um microfone a acompanhá-lo, é como visitar pela décima vez a Mona Lisa. É o que os norte-americanos chamam de "comfort food", comida reconfortante: você sabe exatamente o que vai encontrar e sabe que será bom.

Foi assim no último sábado no Carnegie Hall, em Nova York, casa que serviu de cenário para a introdução da bossa nova no mundo há quatro décadas. O espetáculo chamava-se "40 Anos de Bossa Nova 3" e fazia parte do JVC Jazz Festival, que trouxe o mesmo João em junho de 2000.

Se naquele ano o músico entrou uma hora e seis minutos atrasado, anteontem foi a vez de o público revidar. Durante as primeiras nove canções, que começaram apenas dez minutos depois do marcado, o baiano teve de tocar para uma plateia ainda em formação, que corria em turmas a cada intervalo entre atos.

Composta na maioria por brasileiros e norte-americanos, a audiência trazia ainda um número impressionante de japoneses. Ajudando a reforçar a comparação com a Mona Lisa, estes perderam a inibição no bis e brindaram o músico com um mar de flashes. Ao lado do repórter da Folha, um rapaz de Tóquio que não fala uma palavra em português e mal entende o inglês cantava todas as músicas de cor.

João foi generoso. Tocou por espantosas duas horas e 25 minutos, dedilhando 32 músicas, incluindo aí seis bis. Jogou para a platéia mais no final, com uma sequência de "Corcovado", "Desafinado", "Ave Maria no Morro", "Chega de Saudade" e até mesmo "O Pato", na volta.

Foi no sambinha de Jayme Silva e Neuza Teixeira, aliás, que João deu a única risada da noite, no meio do verso "Na beira da lagoa/ foram ensaiar/ para começar/ o "Tico-Tico no Fubá'", como se, ao cantar pela milésima vez a música, tivesse percebido pela primeira vez a graça de um grupo vocal formado por um pato, um ganso, um marreco e um cisne. Ou isso ou o cigarro antes do show era forte demais.

João foi novidadeiro. Cantou as raras (em seu repertório recente) "Bolinha de Papel" (Geraldo Pereira), "A Primeira Vez" (Bide e Marçal) e até uma inacreditável versão de "Garota de Ipanema" (Tom e Vinicius), em que suprimiu os "ah" (como em "Ah, porque estou tão sozinho/ Ah, porque tudo é tão triste/ Ah, a beleza que existe"). Mesmo nas de sempre introduziu mudanças, como um miniinstrumental no final de "Pato", um murmúrio novo concluindo "Estate" e um pororó inédito em "Meditação".

João foi internacional, com a italiana "Estate", os boleros "Besame Mucho" e "Eclipse", a gershwiniana "'S Wonderful" e a cançoneta "Que Reste-t-il de nos Amours", embora a todas imprima não só sua peculiar dicção sonora como seu sotaque único. Assim, o verso "La neve coprirà tutte le cose" da primeira vira "La nééééé-vi cupriráááá tutchi le côô-si". Aí, outra analogia pictórica é necessária. Se João-ele-mesmo é inescrutável como a Mona Lisa, sua música remete mais à "Aula de Anatomia" de Rembrandt. Como no quadro do holandês, o músico baiano abre uma canção, tira-lhe o recheio, examina o que há e a apresenta, a parte pelo todo. Nós, alunos, ficamos embasbacados na plateia.

Em apresentação no Japão, João Gilberto continua nos detalhes

Show que rendeu ao músico aplausos de 25 minutos da plateia japonesa é transformado em álbum 

8 de maio de 2004 - Alguém deveria fazer um estudo sobre a arte do aplauso. O ato de chocar uma mão na outra, produzindo som em sinal de satisfação, é revelador tanto da plateia que aplaude quanto do artista que é aplaudido. No Brasil, em apresentações musicais e de teatro, costumamos aliá-lo a assobios agudos e gritinhos, além de todos se levantarem das cadeiras.

Nos EUA, não é raro ouvir gritos de "bravo!" ou "brava!" acompanhando as manifestações, especialmente em concertos; nas peças, como não são tão "cordiais" como nós, só se levanta quem realmente achou o espetáculo inesquecível, não há demérito nenhum em ficar sentado. Já o japonês é mais contido, mas persistente -são aplausos secos, mas duradouros.

Na verdade, alguém já fez esse estudo. Está no livro "Gestures, Their Origins and Distribution" (Gestos, Suas Origens e Ocorrências, ed. Stein and Day, 1979), de Desmond Morris, em que de quebra o zoologista revela a origem do dedo médio esticado como ofensa e do polegar levantado como sinal de que as coisas vão bem. Segundo Morris, o aplauso é parcialmente instintivo, pois bebês de meses de idade já o fazem em sinal de felicidade.

Foi em sinal de felicidade que milhares de japoneses aplaudiram por 25 minutos o final de uma das apresentações de João Gilberto em Tóquio. Pense na última vez que você aplaudiu e se imagine fazendo isso por 25 minutos. Existe algum artista que mereceria tal deferência? Vinte e cinco minutos. Diz a lenda que o aplauso mais longo registrado antes desse foi para a lendária Maria Callas (1923-1977), no teatro La Scala, de Milão.

Claro que os 25 minutos não estão registrados no CD "João Gilberto in Tokyo", que a Universal lança agora no Brasil. Mas poderiam, pois todas as faixas e o conjunto em geral merecem.

São 15 músicas apresentadas por João, ele e violão, que abre a noite de 12 de setembro de 2003 no Tokyo International Forum Hall A falando "Kon-ban-wa" (boa-noite, em japonês) e dedilha em seguida repertório que vai de "Bolinha de Papel" a "Rosa Morena", passando por "Lígia" e outras, como sempre.

Detalhes

Como sempre? Não exatamente. Primeiro porque é o primeiro registro em CD da linda "Louco", de Henrique de Almeida e Wilson Batista, que João cantou na Itália conforme mostra o documentário "Bahia de Todos os Sambas" (1984-96) e canta eventualmente aqui e ali, mas nunca tinha gravado em disco dele.

Segundo porque, embora há alguns anos o baiano da bossa se dedique às mesmas 30 músicas, na maioria sambas velhos que ele desenterrou e deu nova forma ou marcos do movimento que ajudou a inventar, uma apresentação nunca é igual à outra, um registro seu, embora aparentemente idêntico na forma, traz detalhes diferentes que só o iniciado é capaz de perceber.(Pois que João é para iniciados, que o resto nos perdoe.)

Assim, em "Corcovado" ele cantarola entre um bloco e outro, triste, triste; revoluciona o final de "Wave", mudando toda a estrutura do violão e terminando em agudo; e reinventa completamente "Adeus América". Como escreve no texto de divulgação Kazufumi Miyazawa, cantor (e não "cantora", como vem identificado incorretamente) da banda The Boom, "João é o equivalente do Brasil". Só que melhor. 

João, o tempo e o vento

Em primeiro show do ano do cinquentenário da bossa nova, músico brinca com o andamento das músicas e lamenta o "ventinho" no Carnegie Hall

24 de junho de 2008 - João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação do ano em que a bossa nova completa seu cinqüentenário. Aos 77 anos, completados no último dia 10, o baiano de Juazeiro tocou duas dezenas de versões clássicas do gênero que ajudou a inventar em apresentação para 2.000 pessoas, que lotavam a sala principal do Carnegie Hall, em Nova York, no domingo.

Se não ousou na sua lista de músicas, fez isso na interpretação delas e ao incluir na abertura do bis a versão que Braguinha (1907-2006) criou para a canção patriótica "God Bless America", que Irving Berlin (1888-1989) começou a compor em 1918 e que os norte-americanos adotaram como um de seus hinos não-oficiais -os EUA não têm um hino oficial.

De certa maneira, João Gilberto cantando "Deus salve a América" ("Verdes mares/ Florestas/ Lindos campos abertos em flor") no palco que o ajudou a consagrar em 1962 era sua maneira de dizer "obrigado" ao país. Modesto e tímido, ele disse que pedia "permissão" para fazê-lo e lembrou que cantava a música quando jovem no Brasil -ele e milhares de estudantes e pracinhas brasileiros nas décadas de 40 e 50.

Foi a primeira apresentação do músico na casa desde 2004, e o primeiro show que faz depois de ter se desligado de sua empresária de mais de uma década, Carmela Forsin. Perto dos 80, João passou o controle de sua carreira a Claudia Faissol, mãe de uma de suas filhas, Luísa -a outra, Bebel Gilberto, expoente de um gênero derivado do do pai, a "new bossa", apresentava-se naquela noite em outro lugar.

Agora, depois de cinco anos de ausência dos palcos brasileiros, o músico faz quatro shows no festival Itaúbrasil. Pela minitemporada em comemoração dos 50 anos da bossa nova, levará um cachê estimado em R$ 2 milhões.

Roupa nova

Mais calvo, um pouco rouco, com ritmo pouca coisa mais lento que nos últimos shows, João Gilberto ainda é João Gilberto. Ao desfilar o rosário de sambas, boleros e sambas-bossas que colocou na história da música popular brasileira apenas por tê-los tocado um dia, o músico apresentou uma roupagem nova de algumas canções que é o mais próximo a que chegaria de uma "regravação".

Foi assim, por exemplo, com a icônica "Chega de Saudade", em que esticou as pausas entre as frases -como em "Que... sem ela não pode ser", "Que... sem ela não há paz, não há beleza" ou "Que os beijinhos que eu darei... na sua boca"-, sussurrou "abraços e beijinhos" e cuja melodia tornou mais grave, o que conseguiu ao cantar "boooleza", em vez de "beleza", e "mooolancolia", em vez de "melancolia".

Ou com "Lígia", uma revolução que comprova a capacidade do músico de se reinventar e, com isso, reinventar o gênero. Ele cantou a música inteira de Tom Jobim depois modificada por Chico Buarque sem mencionar nenhuma vez o nome-título da musa. Sorriu triste na frase "as bobagens de amor que eu iria dizer", emocionando.

Nessas horas e em outras interpretações, como as de "O Pato", "Aos Pés da Santa Cruz" e "Samba de Uma Nota Só", em que mais sussurrou e chegou mesmo a fazer uma segunda voz, ficou mais evidente sua maneira de brincar com o tempo, o andamento das músicas, apressando e atrasando as frases e a melodia, que se encontram no fim.

Animado, ele ritmava as músicas com o pé esquerdo, não numa batida sincopada, mais em ondas que ensaiava com a perna inteira. Nas músicas em que gostava mais do resultado que ouvia pelos dois retornos à sua frente, balançava as duas pernas, afastando e aproximando os joelhos, o que em outros mortais parece ser o tédio na sala de espera do consultório, mas em "joãogilbertês" pode ser descrito como dança.

Momentos de tensão

A noite de quase duas horas e duas dezenas de músicas não foi livre de momentos de tensão. Por três vezes, João reclamou do "vento". "Desculpe falar uma coisa, tem um ventinho aqui na minha cabeça, me faz um pouco afônico", disse, depois de cantar a italiana "Estate". Voltaria após "Wave": "Please, esse ventinho".

A tensão na platéia era evidente. Numa mistura rara de histeria e evento psicossomático coletivos, muitos começaram a sentir eles próprios o vento, não uma brisa leve, mas rajadas de ar ártico congelante. É que, num dos shows na casa, há alguns anos, João chegou a se levantar a 15 minutos de espetáculo e deixar o palco por problemas técnicos.

Mas, na terceira vez em que reclamou do ar-condicionado, após o bolero "Eclipse de Luna", o fato já tinha entrando para o folclore. "Olha o meu ventinho outra vez, please", cantarolou. A plateia riu, aliviada.

O vento estava domado, e a noite, salva.

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