Descrição de chapéu

Discografia de João Gilberto vai do transcendental ao mais do mesmo

Morto aos 88 neste sábado (6), cantor que inventou a bossa nova lançou 17 álbuns

Luiz Fernando Vianna
Rio de Janeiro

Morto neste sábado (6), aos 88 anos, no Rio de Janeiro, João Gilberto gravou 17 álbuns ao longo da carreira, sendo 13 deles em estúdio e seis ao vivo. Descubra, abaixo, o que cada um deles representou para a carreira do músico, conhecido como o criador da bossa nova.

CHEGA DE SAUDADE (1959)
O primeiro LP de João Gilberto, produzido por Tom Jobim, trazia quatro gravações que já tinham sido lançadas em discos de 78 rotações (duas faixas de cada lado): “Chega de Saudade”, que começou a mudar a história da música brasileira logo que saiu, “Bim Bom”, “Desafinado” e “Hô-bá-lá-lá”. Somaram-se a elas outras oito, incluindo “Rosa Morena”. Foi tocando por horas incontáveis o samba de Dorival Caymmi que João formulou a bossa nova.

O AMOR, O SORRISO E A FLOR (1960)
O nome de Tom Jobim, também diretor musical do LP, aparece entre os autores de seis das 12 faixas. A primeira delas, parceria com Newton Mendonça, é a metalinguística “Samba de uma Nota Só”, que virou standard internacional graças a João. É deste disco “O Pato” (Jayme Silva e Neuza Teixeira), samba aparentemente simples que o artista transformou num sofisticado exercício de estilo.

JOÃO GILBERTO (1961)
No fechamento da trilogia fundamental da bossa nova, o cantor gravou duas odes de Dorival Caymmi à Bahia de ambos: “Samba da Minha Terra” e “Saudade da Bahia”. Do repertório de seu ídolo Orlando Silva ele pescou “A Primeira Vez”. Provas de que ele escolhia o que gravar de acordo com o ouvido e o coração, sem se preocupar com grifes, são “Trem de Ferro” (Lauro Maia) e “Presente de Natal” (Nelcy Noronha).

GETZ/GILBERTO (1964)
O disco proposto pelo saxofonista americano Stan Getz foi produzido em Nova York em 1963. A gravadora Verve não viu muito apelo comercial e o engavetou. Até que resolveu lançar, em 1964, como single, uma versão mais curta da faixa “Garota de Ipanema”, com João e sua mulher, Astrud Gilberto, cantando. Foi um sucesso enorme, que se estendeu para o LP de oito faixas, vencedor de quatro prêmios Grammy.

GETZ/GILBERTO #2
Gravado ao vivo no Carnegie Hall, em Nova York, em 9 de outubro de 1964, é o retrato da relação ruim entre os dois artistas. Há faixas só do quarteto de Getz, e há outras só com João —além da participação de Astrud. Foi lançado na cola do sucesso do primeiro “Getz/Gilberto”.

JOÃO GILBERTO EN MÉXICO (1970)
O artista vivia então no México. Gravou a sua “Acapulco” e três canções em espanhol: “Farolito” (do mexicano Agustin Lara), “Besame Mucho” e “Eclipse”. Mas o samba, como sempre, tem força no repertório: “De Conversa em Conversa” (Lúcio Alves e Haroldo Barbosa) e “Ela é Carioca” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) abrem os trabalhos.

JOÃO GILBERTO (1973)
O “álbum branco” de João, como ficou conhecido, tem momentos de suavidade quase transcendental: “Undiú”, “Valsa (Como São Lindos os Youguis)” e mesmo os sambas de seus discípulos Caetano Veloso (“Avarandado”) e Gilberto Gil (“Eu Vim da Bahia”). Começa com “Águas de Março”, composta por Tom Jobim no ano anterior.

THE BEST OF TWO WORLDS (1976)
O reencontro com Stan Getz também teve “Águas de Março” e uma deliciosa versão de “Izaura”, com João cantando em duo com sua mulher, Miúcha. Ele ficou insatisfeito com a mixagem, feita para favorecer o sax de Getz.

AMOROSO (1977)
Acompanhado por um trio de baixo, teclados e bateria e por uma orquestra regida pelo alemão Claus Ogerman, João fez um álbum que influenciou jazzistas de todo o mundo. Das oito faixas, há um standard em inglês (“’S Wonderful”), um bolero espanhol (“Besame Mucho”) e uma canção em italiano que quase ninguém conhecia (“Estate”). Nas mãos e na voz dele, tudo virou música de João. Das cinco faixas em português, quatro são de Tom Jobim.

JOÃO GILBERTO PRADO PEREIRA DE OLIVEIRA (1980)
É o disco resultante do especial da série “Grandes Nomes”, da TV Globo. Mas o nome de João não é tão grande sim: o Prado só existe no sobrenome da mãe, não no dele. Tem sua versão para “Menino do Rio”, de Caetano Veloso, e um dos destaques é o duo com Rita Lee em “Joujoux e Balangandãs” (Lamartine Babo).

BRASIL (1981)
Disco de apenas seis faixas, com gosto de “quero mais”, foi realizado com Caetano Veloso e Gilberto Gil, tendo a participação de Maria Bethânia numa faixa. A abertura é com “Aquarela do Brasil”.

JOÃO GILBERTO LIVE IN MONTREUX (1987)
Gravado ao vivo no tradicional festival suíço, tem a única versão em disco de João cantando “Sem Compromisso”, de Geraldo Pereira. “Garota de Ipanema” está no repertório.

JOÃO (1991)
Foi a volta do artista aos estúdios brasileiros. Com orquestrações e regência de Clare Fischer, o disco tem versões marcantes de “Palpite Infeliz” (Noel Rosa), “Ave Maria no Morro” (Herivelto Martins) e “Sampa” (Caetano Veloso). Na parte internacional do repertório, “You Do Something to me”, de Cole Porter.

EU SEI QUE VOU TE AMAR (1994)
Registro de um show feito no antigo Palace, em São Paulo, tem uma excelente interpretação de “Pra que Discutir com Madame?” (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida), por exemplo, e a única versão gravada por ele de “Você Não Sabe Amar” (Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima).

JOÃO VOZ E VIOLÃO (1999)
Há gravações de duas composições do produtor do CD, Caetano Veloso: “Desde que o Samba É Samba” e “Coração Vagabundo”. E João faz novas releituras de “Chega de Saudade” e “Desafinado”.

JOÃO GILBERTO LIVE AT UMBRIA JAZZ (1996)
Gravado em Perugia, na Itália. A qualidade de sempre, mas o repertório também, sem novidades. Não podia faltar a italiana “Estate”.

JOÃO GILBERTO IN TOKYO (2004)
Um dos discos preferidos do próprio João. Som límpido, plateia silenciosa, voz e violão em grandes momentos. É o único registro seu de “Louco” (Henrique de Almeida e Wilson Batista).

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