Descrição de chapéu Cinema

Filme traz bastidores da cidade onde se trabalha 14 horas por dia para fazer jeans

Documentário mostra mudanças provocadas pela indústria no agreste pernambucano

Cena do documentário 'Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar', de Marcelo Gomes

Cena do documentário 'Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar', de Marcelo Gomes Reprodução

São Paulo

Equilibrando pilhas de calças jeans, uma motocicleta cruza um outdoor. “Bem-vindos à capital do jeans”, diz a placa. Ali começa Toritama, no agreste pernambucano. Com cerca de 40 mil habitantes, ela produz 20 milhões de peças de jeans ao ano, o equivalente a quase um quinto da produção do país.

O lugar é o protagonista de “Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar”, documentário de Marcelo Gomes que chega agora aos cinemas. Lá, em confecções familiares de fundo de quintal, chamadas de facções, ou em fábricas de grande porte, boa parte da população trabalha recortando, costurando, tingindo e pregando zíperes em jeans.

“Queria fazer um filme em que personagem e lugar se contaminassem, fossem porosos”, diz o diretor pernambucano. Sua primeira incursão no documentário, o longa estreou em fevereiro, no Festival de Berlim, com críticas entusiasmadas, e ganhou menção honrosa na competição do É Tudo Verdade, em abril. 

Cenário e personagens se unem, aqui, para criar uma espécie de modelo acidental da carteira verde e amarela defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que flexibiliza direitos trabalhistas.

Dessa forma, na Toritama retratada por Gomes, homens e mulheres trabalham até 14 horas por dia na produção de jeans. Sem carteira assinada em sua maioria, são pagos de acordo com quantas peças entregam.

Gomes conta que, quando ouviu falar do povoado pela primeira vez, achou que fosse se deparar com a Inglaterra da Revolução Industrial. Mas, na cidadezinha, ninguém reclama da labuta.

Ao descrever a jornada de trabalho que começa às sete da manhã e se estende até às dez da noite, uma das entrevistadas admite que a rotina cansa, “mas a gente vai ganhar mais, né?”. “Aqui, você só fica parado se você quiser”, diz outra. “Quem pensar que a vida da gente é ruim está enganado”, afirma uma terceira.

A única exceção é o Carnaval. Às vésperas do feriado, a população vende eletrodomésticos e o que mais tiver à mão para fugir para o litoral. Daí o nome do longa, saído da canção “Quando o Carnaval Chegar”, de Chico Buarque.

O êxodo anual foi o que chamou a atenção de Gomes para a “capital do jeans”. “Será que isso é uma transgressão do capitalismo? Um desespero? Ou outra coisa?”

Acostumado a acompanhar o pai em viagens a Toritama nos anos 1980, ele viu o povoado rural se transformar radicalmente. As lembranças dos dias modorrentos que passou lá, quando o silêncio ainda não havia sido extinto pelo barulho das máquinas de costura, são narradas em off pelo diretor.

“Mudou a memória, a forma de viver, de vestir, de sonhar. Mudou, sobretudo, o modo de usar o tempo. E sinto que o Carnaval foi o que ficou do humano, de buscar a felicidade”, ele diz, acrescentando que uma das traduções da palavra Toritama, de origem tupi, é justamente felicidade. “Minha pergunta final é se a gente trabalha para viver, ou se vive para trabalhar?”

Embora os movimentos repetitivos dos operários na tela remetam ao clássico “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, o documentário de Gomes não toma partido evidente.

Mas o diretor vê com maus olhos a situação dos operários toritamenses. “Esse fenômeno só podia acontecer em um lugar como o agreste, em que não há opções de trabalho. Essa liberdade que eles presumem ter os leva a uma escravidão. As pessoas mais livres também são aquelas que têm problemas de saúde.”

Não é a primeira vez que Gomes se propõe a retratar o processo de modernização do Nordeste. No road movie “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que o alavancou no mercado nacional, um alemão e um brasileiro vagavam pelo sertão para apresentar filmes e aspirinas, dois ícones do progresso na época da Segunda Guerra Mundial.

“Quando se leva esses itens para um lugar que leva uma vida arcaica, que não tem eletricidade ou esgoto, você vê como foi esdrúxula a modernidade instituída por Vargas, concentrada nos grandes centros urbanos do Sudeste”, afirma o diretor. “E, em Toritama hoje, é a mesma coisa. De novo, esse processo de industrialização não é construído em bases sólidas.”

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