Descrição de chapéu Leonardo da Vinci, 500

Estudo investiga mistérios geológicos de obras de Leonardo Da Vinci

Nos 500 anos da morte do artista, estudiosos analisam sua visão revolucionária da natureza

'A Virgem dos Rochedos', de Leonardo da Vinci Reprodução

Silas Martí
Florença

O ar é grosso, pesado quanto a água brava que fazia rodar os velhos moinhos entre as oliveiras da Toscana. Ou denso como a neve que teimou em cair, cortando o bafo tórrido de agosto, em pleno verão há mais de um milênio.

Diz a lenda que no mês mais quente do ano uma nevasca milagrosa caiu sobre Roma onde agora está uma das incontáveis igrejas da cidade. O sopro polar indicava o ponto exato onde mais uma cruz 
deveria espetar o firmamento.

Leonardo Da Vinci lembrou o dia da Virgem das Neves no canto de seu desenho mais antigo de que se tem notícia. Em 5 de agosto de 1473, o artista então com 21 anos esboçou em poucas linhas um catálogo de formas e comportamentos da natureza que surgiria como pano de fundo de suas pinturas mais célebres, da “Anunciação” à “Mona Lisa”.

Seu traço vaporoso anima a paisagem, do rugido da cascata entre as colinas ao farfalhar dos arbustos e ciprestes roçados pela brisa. Era o embrião da doce vertigem que historiadores batizariam “sfumato”, a técnica do artista para envolver os seus retratados numa atmosfera mais densa que o ar, aquilo que torna enigmático, por exemplo, o sorriso de sua Gioconda.

 

Nos 500 anos da morte de Da Vinci, lembrados em maio e também daqui a três meses por uma megamostra no Louvre, em Paris, esse pequeno desenho vem sendo radiografado e estudado à exaustão como cartilha para destravar os mistérios que rondam o artista mais famoso da história.

Nos corredores do Opificio delle Pietre Dure, o maior dos laboratórios de restauro de Florença, onde joias do Renascimento aguardam retoques como carros amassados numa oficina mecânica, o desenho que abraça frente e verso de uma página do tamanho de uma folha sulfite ganhou o apelido de “8P”.

O algarismo e a letra, designação da obra no vasto inventário da Galleria degli Uffizi, um dos maiores museus do planeta com três das obras-primas de Da Vinci no acervo a poucas quadras dali, não fazem justiça ao tamanho do universo enxergado pelos estudiosos no desenho amarelado pelo tempo.

“Isso demonstra que naquele momento Leonardo se preocupava com os fenômenos da formação da Terra”, diz Roberto Bellucci, um dos especialistas que vêm estudando a obra. “Ele parte da observação do movimento da água e chega a entender a estratificação do solo, o relevo das montanhas, o leito dos rios, as bases da geologia. É a primeira vez que uma paisagem é representada como uma forma autônoma e não só como um pano de fundo.”

Nesse sentido, o “8P” está na base dos dois pilares da devoção a Da Vinci. De um lado, nerds da ciência enxergam nele lampejos de um entendimento quase iluminista do mundo natural, enquanto do outro, religiosos vislumbram a matriz de uma representação aurática, esplendorosa do mundo que só podia ser criado por Deus todo-poderoso.

No terraço dos Uffizi, com vista para a esfera dourada que Da Vinci teria ajudado a equilibrar no topo da catedral de Florença, o diretor do museu Eike Schmidt comenta as contradições da “personalidade poliédrica” do mestre.

“Muita gente se interessa mais pela vida pessoal de Leonardo que por sua arte e sua ciência. No pós-Guerra se discutiu muito se ele era cristão ou ateu, mas é claro que ele nunca se deixou orientar pela noção de história natural dos teólogos”, diz Schmidt. “Também sabemos que era gay, mas quis ser sepultado de acordo com todos os ritos católicos.”

Talvez porque além de qualquer questão de fé, a vida de Da Vinci era indissociável do poder do papa e dos cardeais, que encomendavam muitas de suas obras. Na sala dos Uffizi onde estão “Anunciação” e a recém-restaurada “A Adoração dos Magos”, está também “O Batismo de Cristo”, obra de Andrea del Verrocchio, o mestre do gênio renascentista.

Mas Da Vinci, então só um discípulo, arquitetou o detalhe mais marcante da tela, a água de transparência perturbadora aos pés de Jesus e são João Batista. Diz outra lenda —e, em Da Vinci, se navega quase sempre por um lodaçal de lendas— que Verrocchio tomou certo desgosto pelo ofício ao se deixar arrebatar pela técnica do jovem. 

“Ninguém pintou com bases científicas como ele fez”, diz Pietro Marani, um dos maiores estudiosos da obra de Da Vinci. “Ele estudou o ar, a água, a terra, o fogo e como se comportam esses elementos.” 
Na visão de Marani, a graça e o significado de uma obra como a “Mona Lisa”, por exemplo, vão além do tema central e se ancoram num retrato mais naturalista do entorno da personagem. “Ele tentou representar o tempo que passa, uma figura humana que sobrevive às transformações geológicas. É a virtude acima do tempo.”

 

Mas não foram tão cruéis os mais de cinco séculos que separam a Toscana de Da Vinci da atual. No povoado nos arredores de Florença onde o artista nasceu, o “8P”, aquele desenho que historiadores enquadram como marco zero do estilo leonardiano, agora faz uma rara aparição —vindo dos Uffizi— por causa dos 500 anos da morte do mestre.

Não espanta que os organizadores da mostra tenham pendurado o trabalho no alto de uma torre no museu dedicado ao artista que deu fama a Vinci. As janelas ali revelam uma paisagem de semelhança assustadora com a do “8P” —um castelo rodeado de montanhas, um vale de oliveiras plantadas num jogo simétrico, exacerbando os pontos de fuga, e um céu de grossas nuvens, aquele seu ar pesado mesmo quando nem é verão. 

Ninguém sabe ao certo em que casa o artista nasceu ali, nem mesmo quanto tempo viveu no vilarejo antes de entrar para os ateliês de Florença, mas é nítido que aquele cenário atravessa toda a sua obra, seu arquétipo de natureza.

“É uma paisagem recorrente. Tem o mesmo ar grosso, uma umidade que se percebe nas coisas”, diz Roberta Barsanti, a diretora do museu. “O Leonardo está ligado de forma física a esse lugar.”

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