Descrição de chapéu Flip

Entendi que não podia ter medo, diz Ney Matogrosso sobre Secos & Molhados

Músico participou de debate na Casa Folha, em Paraty, no lançamento da biografia do grupo escrita por Miguel de Almeida

Paraty

Era 13h50 quando Ana Carolina Loureiro resolveu parar diante da Casa Folha para esperar o debate com Ney Matogrosso, que aconteceria às 18h30. “Ele marcou a história da minha vida”, diz a paulistana de 45 anos que mora em Paraty há seis anos.

Ela foi a primeira a entrar, com pouco mais de quatro horas de antecedência, com a filha e dois amigos, para ver a conversa do cantor com Miguel de Almeida, escritor e cineasta que lança na Flip “Primavera nos Dentes”, biografia do grupo Secos & Molhados, que sai pelo Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha. A mediação foi do jornalista André Barcinski.

O debate teve participação intensa do público, que, em perguntas e em coro, pedia que Ney cantasse. “Eu vim aqui para conversar”, respondia ele. E ele estava mesmo disposto a isso, queria que o máximo de pessoas do público pudesse fazer perguntas, aceitando sempre “a última” questão da noite.

 

Foi a uma das perguntas de um dos espectadores que assistia à mesa da rua que o músico falou sobre homofobia e a recepção de seu trabalho. “Eu acho a sociedade brasileira mais homofóbica hoje”, disse, em comparação a 1973, quando o primeiro disco do Secos & Molhados foi lançado.

A banda formada pelo português João Ricardo, por Gerson Conrad e Ney vendeu mais de 1 milhão de discos e, como contou Ney, viajou o país de ponta a ponta em sua curta duração. O grupo acabou em 1974 e, em 1975, o ex-vocalista já seguia carreira solo.

“O Secos & Molhados colocou a questão da androginia na macarronada de domingo na sala do brasileiro”, disse Almeida sobre a banda. “Eu entendi que não podia ter medo”, disse Ney, sobre o impacto gerado por aqueles três homens de rosto pintado e figurino estranho.

Ney Matogrosso durante debate na Casa Folha
Ney Matogrosso durante debate na Casa Folha - Mathilde Missioneiro/Folhapress

“Depois do primeiro impacto, estabelecemos uma intimidade com o público, mas não foi tudo sempre cor-de-rosa. Enfrentei 5.000 pessoas me xingando, mas também tinha outras 5.000 me apoiando”, disse Ney.

 

Segundo Almeida, o Secos & Molhados marcou o primeiro momento da indústria cultural no Brasil, angariando como fãs majoritariamente mulheres e crianças. “A tropicália teve um papel importante, mas eles eram hippies, você encontrava pessoas com aquele cabelo do Gil e do Caetano em toda esquina de cidade grande. Foi um fenômeno universitário, não teve o impacto de Secos & Molhados”, disse.

Barcinski e Almeida, que diz ter visto a banda pela primeira vez aos 13 anos, comentaram a fama do grupo nas festas infantis. Uma mulher na plateia, ao pedir que o músico cantasse, contou o quanto Ney marcou sua infância, quando ela “rebolava” ao som de suas canções.

Ney discordou de personagens ouvidos pela biografia sobre um jantar do qual participaram os integrantes do grupo, que negam que o encontro tenha algum dia acontecido. “A-con-te-ceu”, disse, escandindo o verbo. Segundo Ney, os músicos disseram a ele: “você não pode se apresentar como você faz, estão dizendo que somos homossexuais”. “Eu disse ‘é mesmo?’”, contou, “vocês digam que vocês não são, ou botem outro em meu lugar”.

Sobre suas performances, Ney disse não estar no palco para ganhar ninguém. “Eu estou me exibindo artisticamente. Eu faço para todas as pessoas, não para homens ou mulheres”, disse ele após uma mulher do público dizer que, em seus shows, “a mulherada fica ensandecida, todo mundo quer te devorar”.

Fila para entrada da Casa Folha na noite do debate com Ney Matogrosso
Fila para entrada da Casa Folha na noite do debate com Ney Matogrosso - Victor Lopes / Folhapress
 
Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior do texto dizia que disco de 1973 do Secos & Molhados foi o único da carreira. Não foi: a formação original ainda lançaria mais um disco ('Secos & Molhados II') em 1974.

A legenda também identificava o jornalista André Barcinski como Miguel de Almeida. 

A publicação foi atualizada. 

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