Descrição de chapéu

'Eu Menina' marca estreia delicada e invulgar de cineasta

Primeiro filme de Natural Arpajou integra programação do Festival de Cinema Latino-Americano

Eu Menina

  • Quando Seg. (29), às 19h
  • Onde Cinesesc (r. Augusta, 2.075)
  • Elenco Esteban Lamothe e Andrea Carballo
  • Produção Yo Niña, Argentina, 2017, 85 min
  • Direção Natural Arpajou

Normalmente, bastam poucos minutos para percebermos estar diante de um filme invulgar. É o caso de “Eu Menina”, primeiro longa da cineasta argentina Natural Arpajou e integrante do 14º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

Certo, temos a belíssima paisagem das sequências iniciais, isto ajuda. Mas não é só. É um olhar, uma maneira de captar as imagens naturais e as emoções dos personagens que não encontramos corriqueiramente no cinema atual.

Porque não é simplesmente deixar que a natureza ilumine as cenas e embeleze o filme com sua majestade. É permitir que a natureza adquira uma beleza exclusivamente cinematográfica. Algo como um quadro pintado. Pintura feita com a câmera, à maneira de um Akira Kurosawa.

Cena do filme argentino 'Eu Menina', de Natural Arpajou
Cena do filme argentino 'Eu Menina', de Natural Arpajou - Reprodução

E depois tem as pessoas que interagem com essa natureza. No caso, Pablo (Esteban Lamothe), Julia (Andrea Carballo) e a filha Armonía (Huenu Paz Paredes) formam uma família que vive à margem da sociedade, em contato com o que é mais puro, ainda que essa pureza tenha suas hostilidades, além dos problemas que chegam por cartas.

Após 20 minutos, a mudança. O filme descobre a cidade. O urbano irrompe na tela apresentando um novo desafio para a diretora. Como aquele olhar, tão afeito a flagrar as belezas da natureza, irá procurar alguma beleza no barulho e na poluição? Na transição, um outdoor anuncia a propaganda de cigarro: “Respira... natureza”. Irônico.

Na casa da irmã, esta estranha os hábitos saudáveis que a mãe e a filha adotaram: a recusa à carne como alimento, a escolha pela vida longe das corporações, a liberdade, em suma.

O olhar se enfraquece um pouco. Vemos até mesmo a imagem clichê de um frequente apagar e acender de luz, embora aqui com um significado mais justo: o encantamento com a luz elétrica por quem estava vivendo um tempo no mato.

Mas a atenção com detalhes que costumam ser negligenciados e a delicadeza na representação das relações humanas continua. Lembra o que Lucrecia Martel conseguiu em “O Pântano”, seu melhor filme. 
A cena em que Armonía olha para o céu, no quintal da casa dos tios, à procura daqueles que acredita serem seus pais verdadeiros, lembra a das crianças cantando na frente do ventilador no filme de Martel. Um verdadeiro achado poético da trama que a diretora filma com muita sensibilidade, sublinhando a atuação da pequena atriz.

O filme fala também de hipocrisia, de uma sociedade apodrecida e cheia de preconceitos. Isso fica evidente quando a mãe de um amigo novo de Armonía o impede de visitá-la.

Melhor então é viver longe de toda a falsidade. Melhor voltar para a natureza, que já não parece mais tão exuberante como no início —grande achado do filme. 

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