Filho de João Gilberto, João Marcelo ameaça um apagão do nome do pai

Em guerra com Bebel, músico pode não autorizar o uso da imagem e do nome do criador da bossa nova

Marina Dias
Jackson (EUA)

João Marcelo Gilberto nunca quis morar perto de gente. Escolheu uma casa espaçosa, cercada de árvores e poucos vizinhos, para montar um estúdio de música e uma garagem, na qual restaura carros. Levou a mulher, Adriana Magalhães, e a filha de três anos, Sofia, para viver em Jackson, uma cidade de 40 mil habitantes em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Sentado na ponta de sua mesa de jantar, explica aliviado que o supermercado mais próximo fica a dez minutos de carro e que o celular só funciona conectado ao wi-fi ou a uma única operadora. “É para não atrapalhar quando estamos fazendo música”, afirma.

Filho mais velho do cantor e compositor João Gilberto, ele diz que a atmosfera pacata ajuda a aplacar o estresse que tem vivido desde antes da morte do pai, em 6 de julho.

Há meses, o produtor musical de 58 anos está em guerra com a meia-irmã Bebel Gilberto, detentora da curatela integral do criador da bossa nova.

Ele alega que o pai foi submetido a tratamentos abusivos, com cuidadores desleixados e consultas médicas realizadas à força. E ameaça não autorizar o uso da imagem e do nome de João Gilberto em novas produções caso Bebel não entre em acordo com ele.

“Herdeiros têm direito de negar o uso do nome e da imagem. Se essas pessoas não começarem a me tratar com mais respeito, vão comer fogo.”

João Marcelo é tratado pela família como um filho ausente, que não se interessava pelos negócios do pai até a possibilidade de o músico receber indenizações milionárias. 

Sua versão é de que ele foi excluído por Bebel a partir da interdição de João Gilberto —feita em 2017 com consentimento dos filhos— e que queria ter dividido a curatela com a meia-irmã.

“Nunca procurei ter a curatela exclusiva, queria compartilhá-la, queria transparência”, diz. “Meu pai estava se sentindo muito agredido pela curatela. Ele não gostava da situação que Bebel impôs a ele.”

Nos últimos seis meses, seus olhos foram os de Magalhães, que viajou ao Rio de Janeiro com Sofia para visitas quase diárias ao apartamento de João Gilberto no Leblon. Marcelo, como é chamado pela mulher, afirma que não poderia deixar os Estados Unidos. Após 54 anos no país, deu entrada no pedido de nacionalidade.

Sua mulher deu detalhes de cenas que descreveu como “de confusão e divergência”. Segundo ela, as brigas geradas pelo confronto entre Bebel e Maria do Céu, ex-companheira de João Gilberto, faziam com que a filha chorasse muito e deixavam o sogro irritado. 

 
 

Mas na véspera de sua morte, conta Marcelo, o pai fez um apelo sobre a briga em torno da desordem financeira que marcou sua última década de vida. “Ele me chamou por FaceTime e disse: ‘Que luta é essa? Eu não aguento mais’.”

A disputa é pelo espólio do artista que revolucionou a música brasileira mas, segundo o primogênito, nunca cuidou de seus negócios pessoalmente.

Enquanto tirava os óculos de grau e passava a mão no rosto, João Marcelo deixava mostrar as lesões vermelhas que descamam ao longo de seus braços. 

Ele tem artrite psoriásica, doença autoimune que compromete as articulações e sua habilidade de tocar violão, mas ainda o permite arriscar na bateria o rock progressivo de que tanto gosta.

Entre as filhas e a enteada Alice, 17, que estava de férias, João Marcelo diz que seria mais justo que Bebel, caso fosse o responsável por dividir a herança do pai.

“Se alguém tivesse tido a gentileza de me respeitar e se eu fosse confiado para organizar a divisão entre as partes envolvidas, faria com que todo mundo fosse tratado com justiça, porque não sou um porco, mas a maioria dos envolvidos é.”

Foi Magalhães quem alertou ao marido que não poderia mencionar publicamente o nome da meia-irmã. A cada vez que o faz, explica, a indenização que tem que pagar a ela por danos morais aumenta em R$ 10 mil.

“Bebel entrou com processos para João Marcelo não poder falar livremente com a imprensa, uma ordem de mordaça. Com isso, ele não pode contextualizar as histórias e elas ficam comprometidas”, afirma sua mulher.

“I don’t give a fucking shit”, retruca João Marcelo, que recorreu diversas vezes ao inglês. Alfabetizado apenas no idioma americano, costuma dizer que falar português com fluência é “um verdadeiro milagre”.

Já a caçula Sofia adora brasilidades e fala somente português. Influência da mãe, terrivelmente carioca, como diz João Marcelo. “Acho que ela [Bebel] custou dias de vida ao meu pai. Quero pensar que a Sofia prolongou a vida dele o tanto que minha irmã a encurtou." Procurada, Bebel Gilberto não se manifestou.
Em abril deste ano, o produtor musical entrou na Justiça contra João Gilberto para pedir pensão para a filha de três anos. Justifica que foi orientado por advogados como forma de ter acesso às informações sobre o cantor e que nunca pediu dinheiro para o pai.

João Gilberto aguardava uma indenização milionária da gravadora EMI, responsabilizada por falhas na remasterização de quatro de seus discos. 

Em 2013, o banco Opportunity assumiu tanto essa querela jurídica como a comercialização das obras da fase EMI, adiantando R$ 4,75 milhões para o músico. Após a EMI ser incorporada pela Universal, a Justiça concluiu que a nova gravadora seria responsável pela indenização fixada inicialmente em R$ 173 milhões.

João Marcelo diz não ter ideia de quem receberá o montante. “Depende de quem vai ser julgado herdeiro dele. A Maria do Céu está tentando união estável, que ele nunca teve, a Lulu [filha de João Gilberto com a ex-mulher Cláudia Faissol] até hoje não se representou com um teste genético para provar que é filha dele, quem sou eu para dizer quem vai ganhar dinheiro? De repente, do jeito que está correndo, não vou ganhar nada porque tenho sido cortado de tudo.”


Imbróglio sem fim

2011

Turnê organizada pela ex-mulher Cláudia Faissol e que comemoraria os 80 anos de João Gilberto é cancelada após o cantor contrair gripe

2013

Casas de show vão à Justiça pedir indenização por valores adiantados pelos organizadores da turnê
João Gilberto aguardava indenização milionária da gravadora EMI, responsabilizada por falhas na remasterização de quatro de seus discos, quando o banco Opportunity —em costura intermediada por Cláudia Faissol— assumiu tanto essa querela jurídica como a comercialização das obras da fase EMI, adiantando R$ 4,75 milhões para o músico (a segunda parcela, de valor igual, não chegaria a ser depositada)

Uma nova perícia deve auxiliar a justiça a cravar a indenização, a princípio fixada em R$ 173 milhões, cifra contestada pela gravadora

2017

Bebel Gilberto, apoiada pelo irmão João Marcelo Gilberto, pede a interdição judicial do pai

2018

João Marcelo diz que foi excluído por Bebel das decisões sobre o pai e faz ataques à meia-irmã, a Cláudia Faissol e à então namorada de João Gilberto, Maria do Céu Harris

João Marcelo e Bebel dizem que Cláudia Faissol foi responsável por levar João Gilberto à falência com contratos que comprometeram seu patrimônio

2019

João Gilberto vence processo milionário contra a gravadora Universal. Royalties devidos desde 1964 ao músico poderiam chegar a R$ 173 milhões, segundo processo

Bebel presta queixa contra Maria do Céu, acusando-a de tê-la impedido de entrar no apartamento do pai
João Marcelo acusa Bebel de roubar dinheiro do pai e de esconder dele informações; é condenado por danos morais

João Marcelo e sua mulher, Adriana Magalhães, contratam o advogado Gustavo Carvalho Miranda que, por determinação da Justiça, conseguiu o direito de representar também João Gilberto

Morre João Gilberto

Bebel e João Marcelo pretendem listar os bens que estavam no apartamento do Leblon; João Marcelo sugere que fiquem guardados num guarda-móveis até decisão da Justiça sobre herdeiros e divisão do espólio do cantor

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