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Cinema

Filme tenta entender Neville D'Almeida, que encheu de sexo o cinema

Documentário mostra bastidores da vida do diretor desde a vanguarda até as adaptações de Nelson Rodrigues

Sérgio Alpendre
São Paulo

Neville d'Almeida – Cronista da Beleza e do Caos

  • Quando Estreia na quinta (4)
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Mário Abbade

Por vezes, o cinema se olha no espelho em regozijo. "Neville D'Almeida – Cronista da Beleza e do Caos" é mais um filme sobre um diretor importante do cinema brasileiro. A defesa de um autor controverso e incompreendido.

Dirigido pelo crítico Mario Abbade, o longa procura mostrar quem foi esse cineasta e artista plástico que bagunçou o panorama cultural brasileiro nos anos 1970 e 1980 com filmes como "A Dama do Lotação", "Os Sete Gatinhos" e "Rio Babilônia".

Este último foi apelidado na época de a versão brasileira de "A Doce Vida", numa alusão ao famoso filme de Federico Fellini.

Neville se apresenta de cara como o cineasta mais censurado da história do cinema brasileiro. Mas se a censura é sempre uma aberração, é fato que, uma vez que ela existe, ele não fez muito esforço para driblá-la. Esse é um dos seus trunfos. Raramente há concessões ao gosto médio em seus filmes.

Eles possuem nudez, linguagem chula, temas tabus e cenas de sexo quase explícito —as de "Rio Babilônia" são particularmente audaciosas. São alvos fáceis para quem quer vigiar o gosto e o modo de vida alheios, ainda mais num país como o Brasil, sempre com um pé no atraso mais profundo.

O documentário de Abbade é formalmente comportado, embora mostre praticamente todas as cenas mais ousadas dos filmes de Neville, incluindo membros eretos e sexo oral. Uma rigorosa cronologia é seguida, permitindo que ganhemos em didatismo o que perdemos em invenção.

As entrevistas, obviamente, pontuam o relato cronológico: Maria Gladys, o montador e realizador morto há pouco Geraldo Veloso, Claudio Assis, Lima Duarte, Carlos Diegues, o próprio Neville, entre muitos outros que passaram pela carreira do cineasta ou analisaram sua obra.

O espectador passa a conhecer melhor seu percurso, da vanguarda mais alucinada às duas adaptações de Nelson Rodrigues, do difícil período da decadência e posterior dissolução da Embrafilme à retomada do cinema brasileiro em meados dos anos 1990, da instalação do pavilhão dedicado às "Cosmococas" em Inhotim, série de instalações que realizou com Hélio Oiticica, ao seu último longa, "A Frente Fria que a Chuva Traz". Um caminho cheio de obstáculos e histórias de bastidores.

Num dos momentos mais interessantes, uma imagem de arquivo mostra a dama do lotação, Sônia Braga, entrevistando o autor Nelson Rodrigues, na presença de um encabulado Neville. O escritor aprovou a adaptação feita. É a glória alcançada pelo cineasta anteriormente maldito.

E sempre vítima de preconceito, raramente considerado um autor, "por meter a mão na lama, no sangue e no esperma", como diz o crítico Ruy Gardnier, um dos entrevistados no filme.

Neville d'Almeida é performático. Suas falas funcionam como chamados de guerra pelo cinema livre, pela faceta mais animalesca de atores e atrizes. Sua paixão é sempre explícita, mesmo quando parcialmente escondida por óculos escuros.

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