Descrição de chapéu

Flip está para a esquerda como um cobertor quente para o inverno

Enquanto eles se dão as mãos numa ciranda de boas energias, o Brasil acontece lá fora

Anna Virginia Balloussier
PARATY (RJ)

A Flip está para a esquerda como um cobertor quentinho para o inverno. Que aconchegante é para tantos este "safe place" de gente que pensa igual, que compartilha do mesmo ultraje com a maçaroca terraplanista que virou o país. 

Em 2003 estrearam juntos o governo lulista e a festa literária de Paraty. E Deus me Lula Livre ver essa gente reaça no meu parquinho, concordavam todos ali.

Público faz fila para a mesa "Um Dedo de Prosa" com Heloísa Seixas e Ruy Castro na Casa Folha
Público faz fila para a mesa "Um Dedo de Prosa" com Heloísa Seixas e Ruy Castro na Casa Folha - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ao longo dos anos, a Flip de fato abriu pouquíssimo espaço para vozes à direita. 

Encaixaram aí Christopher Hitchens, convidado em 2006. Anticomunista o inglês era, com certeza. Mas também um ateísta fissurado no Estado laico, uma boa piscadela para progressistas. 

Outros nomes por pouco não infartaram alguns corações canhotos. Três anos atrás, o poeta sírio Abud Said alvoroçou a plateia ao declarar: "Juro por Deus que não há sociedade mais doente que a intelectual e os que trabalham com direitos humanos". Saiu sob gritos de "babaca".

Em 2013, um reles mediador foi interpelado pouco pacificamente por um estudante chamado Gandhi. "William Waack não representa a luta popular!"

Marcelino Freire encrencou com o homenageado de 2010, uma múmia reacionária para certa ala progressista, e o ex-presidente que versaria sobre ele. "Quem tem saco para ouvir FHC falando de Gilberto Freyre? A festa tucanou?" 

Muitos tachados de direitistas (um baita xingamento para os flipenses), como o economista Eduardo Gianetti, para olavistas contemporâneos poderiam muito bem ter Karl Marx tatuado na nádega. A esquerda, naturalmente. 

Foi um pupilo de Olavo de Carvalho que tuitou, na quinta (11), sobre essa mania que a Flip tem de tapar os olhos para a direita e cantar "lá, lá, lá". 

"A Flip terá uma mesa [com a historiadora Lilia Schwarcz] sobre a ascensão da direita no Brasil. 'Sobre'. Não uma mesa com alguém da direita. Louvor às diferenças, ao famoso Outro com O maiúsculo, mas falar com gente de direita, aí já é demais", escreveu o tradutor Pedro Sette-Câmara.

Deveria a festa agregar mais vozes conservadoras? Pode ser uma boa ideia, ou periga continuar nesta redoma onde opiniões similares ricocheteam, sem atingir novos alvos. 

Se a direita esteve na Flip neste ano, foi com um protesto de moradores contra a participação de Glenn Greenwald num debate.

Enquanto a esquerda se dá as mãos numa ciranda de energias positivas, o Brasil acontece lá fora.

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