Francis Ford Coppola encerra com aula e alvoroço o festival Ritrovato, em Bolonha

Sem espinha dorsal desde a morte de seu fundador, evento italiano teve altos e baixos

Cena do filme "Apocalypse Now", o clássico de Francis Ford Coppola sobre a Guerra do Vietnã Divulgação

Bolonha

Se no ano passado a estrela midiática do festival Ritrovato foi Martin Scorsese, desta vez foi Francis Ford Coppola. A praça Maggiore de Bolonha no sábado (29) estava tomada desde o meio da tarde pelas pessoas que o veriam seis horas depois fazer a apresentação de seu “Apocalypse Now/Final Cut”.

Verdade que Coppola não é um preservacionista como Scorsese. Seu prazer é remontar sua obra-prima sobre a Guerra do Vietnã.

Será este último corte melhor ou pior? Desculpe, não consegui acompanhar as mudanças. Por ora, o que importa mesmo para a organização da mostra é a importância desse sucesso para conseguir novos financiamentos junto a patrocinadores, já que o governo  italiano não vê com simpatia a ideia de patrocinar eventos culturais, o que obrigou o Ritrovato a se tornar uma fundação.

A 33ª edição do evento parece ter sido balizada de certa forma por essas dificuldades e pela necessidade, decorrente, de agradar um pouco a todo mundo. Foi esse o defeito da mostra, trazer um pouco de tudo e raramente afirmar um ponto de vista claro. 

Assim, tivemos belos achados, como a exibição de um novo restauro de “Finis Terrae”, filme feito por Jean Epstein em 1929 e que parece ter sido uma referência importante para o Mário Peixoto de “Limite”. Este, digamos, é mais metafísico. Já Epstein construiu uma beleza seca, em torno de elementos naturais como as ilhas vulcânicas e o mar. Não temos pessoas às voltas com um abstrato limite da vida humana, mas pescadores em luta com a doença e as marés, na sua luta pela sobrevivência.

A seleção francesa, marcada pelo hype bem exagerado em torno de Musidora (ótima como presença, mas fraca como diretora), foi muito mais brilhante com os curtas de Georges Franju, um cineasta pouco conhecido, porque ficou entre a velha guarda que vinha dos anos 1930 na França e a nouvelle vague. Seu “Le Sang des Bêtes” (o sangue dos animais) é a maior obra-prima sobre e contra a trucidação de animais nos matadouros. Um filme difícil de ver, tal a violência que é mostrada e a frieza com que essas imagens são comentadas por Jean Painlevé, o patrono do cinema científico.

Franju provou que era bem mais eclético do que se poderia imaginar quando foi mostrado seu “Judex”, de 1964. Em princípio, uma homenagem ao criador do personagem do justiceiro do seriado de 1914, Louis Feuillade. Mas Franju fez disso um exercício de liberdade e humor, de poesia e modernidade. Pouco se lixou para o verossímil. O importante no seu filme é retomar o espírito inventivo, o prazer das situações e viradas rocambolescas, a produção de imagens tão belas quanto estranhas (como a do homem com cabeça de pássaro).

A seleção alemã trouxe filmes do imediato pós-Guerra, com um interesse antes de tudo histórico, pois retratam o momento em que o lado ocidental do país buscava descobrir o que queria para si e, portanto, o que filmar. Não por acaso, o mais interessante dos filmes do ciclo foi “Um Filme sem Nome”, de Rudolf Jugert, de 1949, em que, justamente, três cineastas pensam em como desenvolver seu roteiro.

No mais, foi uma mostra de achados e perdidos, por vezes deslumbrantes, não raro decepcionantes. Deslumbrantes: a mostra de Youssef Chahine que terminou com a superprodução “Saladino”, em que Chahine prova que pode levar com sucesso desde pequenos filmes realistas a superproduções históricas, passando por compromissos que com muita facilidade poderiam se tornar ridículos, como “Gente do Nilo”, coprodução egípcio-soviética que nem um nem outro país quis exibir —e censurou. 

O novo restauro do Projeto Keaton, “College”, de 1927, é muito superior à sua fama. Keaton era de fato prodigioso. E quanto mais o tempo passa parece mais complexo e variado do que o próprio Charlie Chaplin.

A retrospectiva dedicada a Henry King e às produções de William Fox ao menos serviu para trazer de volta ao cinemascope (e não ao 16 x 9 imposto pela TV) “O Estigma da Crueldade”, de 1958. Possivelmente um dos faroestes mais sombrios, talvez mesmo o mais sombrio de todos os tempos, essa história de vingança é quiçá a obra-prima da longa carreira de King e também a melhor interpretação de Gregory Peck em toda a sua vida.

Mas esses são achados de uma mostra que parece sentir mais, a cada ano, a falta de seu diretor artístico, Peter van Bagh, morto em 2014, e substituído por uma equipe de curadores. Ou seja, falta-lhe hoje uma  espinha dorsal.

Ainda assim, ele consegue trazer personagens importantes, como Thierry Frémaux, o homem do Instituto Lumière  e do Festival de Cannes, ou seja, o patrão do cinema europeu. Ele continua sua batalha contra a Netflix, que qualifica de “a vingança de Edison”, ou seja, a imposição de um modelo de espetáculo individual, via TV, contra o espetáculo coletivo.

Por fim, é preciso dizer que o melhor de Coppola nem sequer foi na praça Maggiore, e sim em sua “Lição de Cinema”. O cineasta quebrou o protocolo e, em vez de pontificar, optou por pedir aos alunos de cinema presentes que lhe fizessem perguntas e as respondeu. O diálogo em vez do monólogo foi, afinal, a grande lição do mestre italo-americano. Foi o que mais marcou sua passagem por Bolonha, por estabelecer esse elo entre passado, presente e futuro, sem o qual arte nenhuma vai por diante.

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