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Artes Cênicas

Hermetismo de peça atrapalha compreensão da aflição de Qorpo-Santo

No espetáculo dirigido por Wagner Antônio, tudo acontece num dispositivo cênico chamado de peça-instalação

Paulo Bio Toledo

Parede

  • Quando Sáb.: 21h. Dom.: 19h. Até 7/7
  • Onde Espaço 28 - r. Dr. Bacelar, 1.219, Vila Clementino
  • Preço R$ 30
  • Classificação 18 anos

Em seu mais recente trabalho, o coletivo teatral 28 Patas Furiosas mergulha na obra de Qorpo-Santo, morto em 1883, talvez o mais enigmático autor da dramaturgia brasileira. Chamado de louco, o gaúcho só foi lido com interesse artístico na década de 1960.

Em “Parede”, o grupo busca articular impasses do autor com escritos de sua “Ensiqlopèdia”, obra marcada por febril pulsão literária, provável forma de vazão ao sofrimento psíquico.

No espetáculo dirigido por Wagner Antônio, tudo acontece num dispositivo cênico chamado de peça-instalação. O público já começa imerso no ambiente cenográfico, que vai mudando com o andar da peça. 

As cenas são em sua maioria composições plásticas que parecem representar um terrível mundo regulador visto pela mente atormentada de Qorpo-Santo.

Cena da peça interativa 'Parede', do grupo 28 Patas Furiosas
Cena da peça interativa 'Parede', do grupo 28 Patas Furiosas - Helena Wolfenson/Divulgação

As imagens remetem a aspectos desumanizadores do trabalho, do cotidiano e da sociedade, como quando um casal troca carícias, mas suas cabeças estão soterradas por blocos de concreto. E paredes são erguidas e destruídas em um frenesi que não aponta para a superação. Só reiteração de um labirinto profundo.

Convivendo em cena com esse diagnóstico de nossa sociedade, as palavras de Qorpo-Santo, previamente lidas e gravadas, soam como uma recusa lírica a isso. Os arroubos aparentemente desconexos vibram como uma sintaxe de resistência à máquina do mundo.

Só que o espetáculo não tenta decifrar tal fúria literária do autor. Parece que se deixa encantar por formulações misteriosas. Há um fascínio pela composição enigmática de sua obra.

Os escritos são tratados como fragmentos de oráculo, uma espécie de compreensão santa das verdades invisíveis do mundo. Mas o grupo não traduz ou elabora criticamente esses sinais. Há, antes, a duplicação de seus enigmas.

A linguagem cifrada e a estética sombria da encenação parecem ser formas de encontro com o autor que as inspira. Mas resultam em uma nova camada de hermetismo que mais afasta do que nos aproxima de Qorpo-Santo e de sua recusa em aceitar essa nossa humanidade desumana.

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