Descrição de chapéu

João Gilberto viu a bossa esgotada e decidiu inventar uma bossa nova

Músico conhecia de cor as letras, harmonias e arranjos

Ruy Castro

A música popular, de toda parte, não tem muitas alternativas. Ou é romântica —dolente, de frases longas, tristes ou sensuais, para dançar de rosto colado ou fazer chorar—  ou é sincopada, alegre, de frases curtas e ágeis, para dançar agarradinho ou com todo o respeito, mas sempre como quem não leva o amor ou a conquista muito a sério. De 1902, quando a indústria do disco se instaurou aqui, a 1930, o Brasil produziu grande música nas duas categorias.

No departamento romântico, havia as modinhas, valsas, canções, cançonetas, toadas, foxes, choros, serenatas e suas inúmeras combinações, a cargo de artistas como Catullo da Paixão Cearense, Patápio Silva, Mario Pinheiro, Eduardo das Neves, Pixinguinha, Vicente Celestino, Freire Júnior, Patrício Teixeira, Gastão Formenti, Augusto Calheiros, Jorge Fernandes, Luiz Americano. No da música sincopada, havia os tangos, polcas, mazurcas, chótis, quadrilhas, dobrados, frevos, maxixes, batuques, emboladas, cocos, cateretês e, apenas começando, as marchinhas de Carnaval —tudo isso de e por Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros, Baiano, Donga, Eduardo Souto, Freitinhas, Sinhô, Francisco Alves, Aracy Côrtes, Lamartine Babo, João de Barro e muitos mais.

O músico João Gilberto em maio de 1960 - Arquivo Agência O Globo

Por volta de 1928, um gênero deixou de ser somente dança, perdeu o sotaque de maxixe e se impôs: o samba. E já surgiu comportando as duas grandes águas: o romântico, que resultou no samba-canção, e o sincopado, que deu no samba de bossa —moleque, malicioso, quase canalha. Ambos tiveram praticantes ilustríssimos. O samba-canção produziu compositores como Ary Barroso, Noel Rosa, Vadico, Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins, Antonio Maria, Tito Madi, Dolores Duran, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho, Cartola, uma multidão —alguns, como Ary, Noel e Caymmi, praticaram a dupla militância. E o samba de bossa gerou um repertório que, entre 1930 e 1960, consagrou cantores como Mário Reis, Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Cyro Monteiro, Vassourinha, Os Anjos do Inferno, Lúcio Alves, Os Cariocas, Doris Monteiro, Johnny Alf e outra multidão.

João Gilberto sabia essa história de cor —música, letra, harmonias, arranjos, orquestrações. Mas, pela quantidade de fabulosos sambas de bossa que incluiu em seus discos (alguns, várias vezes), pode-se garantir que era o ritmo que ele preferia. Era o que lhe permitia fazer as brincadeiras de voz e violão que estavam na essência de seu estilo. E a bossa, pode reparar, é sempre uma brincadeira.

Exemplos: "Samba da Minha Terra" (1940), "Acontece que Eu Sou Baiano" (1943), "Doralice" (1945) e "Lá Vem a Baiana" (1947), de Dorival Caymmi; "Morena Boca de Ouro" (1941), "Isto Aqui o Que É?" (1942) e "É Luxo Só" (1957), de Ary Barroso; "Isaura" (1945), de Herivelto Martins e Roberto Roberti; "Da Cor do Pecado" (1939) e "Curare" (1940), de Bororó; "Trem de Ferro" (1943), de Lauro Maia; "Sem Compromisso" (1944), "Falsa Baiana" (1944) e "Bolinha de Papel" (1945), de Geraldo Pereira; "Eu Sambo Mesmo", "Eu Quero um Samba" e "Pra que Discutir com Madame?" (1945), de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa; "De Conversa em Conversa" (1947), de Haroldo Barbosa e Lucio Alves; "O Pato" (1950), de Jayme Silva e Neuza Teixeira; "Adeus, América" (1948) e "Tin-tim por Tin-tim" (1951), de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa.

Todos estes, grandes sambas "de bossa". E, como se vê, compostos até 1951 —a única exceção, "É Luxo Só", de Ary Barroso e Luiz Peixoto. É como se, para João Gilberto, nos anos 1950, o Brasil tivesse desaprendido a fazer os sambas desse tipo.

E, como essa bossa lhe parecesse esgotada ou esquecida, ele se sentiu obrigado a trazê-la de volta --e a criar uma bossa... nova.

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