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Livro disseca Leonardo Da Vinci, seus métodos e sua aventura criativa

Ensaio de Alfredo Bosi analisa o gênio ainda influente 500 anos após a sua morte

Detalhe da pintura ‘Virgem e o Menino com Santa Ana’, de Da Vinci Jean Louis Bellec/The New York Times

Laura Erber

Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci

  • Preço R$ 34 (88 págs.)
  • Autor Alfredo Bosi
  • Editora Edusp

Durante alguns séculos, Leonardo da Vinci sofreu o efeito dos estudos parciais de sua obra. Entre os séculos 16 e 17, foi admirado como artista absoluto e gênio pintor, enquanto no século 19 foi consagrado como cientista e inventor. 

“Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci”, livro de Alfredo Bosi publicado pela Edusp, foge a esse dualismo e propõe interrogar a situação ambígua de Da Vinci no Renascimento, considerando o desejo de conhecimento e as fantasias visuais que mobilizou. 

Mais conhecido por sua contribuição aos estudos de literatura brasileira, Bosi mantêm há várias décadas um interesse pelas artes italianas, tendo se dedicado também às obras de Pirandello e Leopardi.

O livro sobre Da Vinci responde de certo modo aos debates acompanhados por ele nos anos 1960, na Itália, entre Eugenio Garin e Cesare Luporini, ambos professores da Universidade de Florença, defendendo abordagens divergentes da obra do artista toscano. 

Seu argumento principal é que, entre o naturalismo renascentista e o neoplatonismo em voga na Florença do século 15 e ao qual Da Vinci adere, existe uma articulação não contraditória que precisa ser levada em consideração. 

Com Da Vinci, a pintura do chamado Quattrocento teria se transformado numa espécie de ciência do visível. “O desejo do conhecimento acende a inteligência e estimula a fantasia plástica”, diz Bosi, que também fala em “olho mental”. No caso do artista italiano, isso seria fruto da articulação entre o observador e a valorização da potência imaginativa. 

Bosi se interessa então pelos métodos —o exercício do desenho anatômico, desenhos de convulsões naturais, vendavais, tempestades, mas também anotações e pequenas fábulas disseminadas em cadernos e códices— e pelos caminhos da mente nas figuras egressas da “bizarra fantasia” de Leonardo Da Vinci. 

Parte do vasto material para revelar uma concepção de natureza dinâmica e complexa que também afeta os usos de luz e sombra em sua pintura e a invenção do “sfumato”, que dissolve os limites dos objetos e cria uma atmosfera mais rarefeita e misteriosa. 

Desviando-se da análise de viés sociocultural que contextualiza o ambiente renascentista, o ensaio de Bosi trata antes da aventura criativa do pensamento, dando especial atenção a seus escritos, ou fólios, que permitem ampliar o entendimento de seu gesto plástico. 

Bosi toma a pintura de Da Vinci como pensamento não verbal, mas também como captação poderosa da mobilidade do mundo que o desenho conseguiria apenas fixar e descrever. O autor mostra que em Da Vinci há uma tensão produtiva entre o estudo científico da natureza e uma resistência à racionalização do sensível que caracterizou a pintura italiana durante o Renascimento.

É uma pena que à discussão travada no livro faltem referências bibliográficas mais atualizadas e abrangentes. 

Teria sido interessante ver a perspectiva de Bosi dialogar mais diretamente com aquela de Daniel Arasse.

Ou mesmo com André Chastel, que abordou o trabalho de Da Vinci em termos de uma “ciência da pintura” e via no seu gosto pela sombra e pelo soturno uma heresia no interior da estética florentina, voltada predominantemente para o esplendor da visibilidade. 

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