Marepe constrói painel nostálgico sobre a Bahia em sua primeira retrospectiva

Conhecido como o Duchamp baiano, ele reúne 30 obras que combinam humor e crítica social

Clara Balbi
São Paulo

“É uma situação bem desrespeitosa, não é? Cada um tem seu nome. Um é baiano, outro é maranhense”, comenta Marcos Reis Peixoto, o Marepe, quando questionado sobre um episódio recente em que o presidente Jair Bolsonaro usou o termo racista “paraíbas” para se referir a nordestinos.

Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, lugar onde vive até hoje e do qual sua obra plástica é indissociável, o artista faz sua primeira retrospectiva agora na Pina Estação.

Organizada por Pedro Nery, a exposição reúne cerca de 30 trabalhos pinçados da carreira do “Duchamp baiano” —alcunha que, recebida da curadora Lisette Lagnado nos anos 1990, permanece 
viva ainda hoje. Afinal, a prática de tirar objetos de seu contexto original com a qual o francês Marcel Duchamp revolucionou a história da arte no século 20 marca grande parte da produção do artista.

Ela já estava presente, por exemplo, em “Tudo no Mesmo Lugar pelo Menor Preço”, trabalho que mostrou na Bienal de São Paulo em 2006. Um muro pintado à mão retirado de sua cidade natal e reproduzido, intacto, no pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, ele é ao mesmo tempo símbolo de um Brasil arcaico e um pedaço de memória afetiva, uma vez que pai e avô do artista trabalharam na loja que o paredão anuncia.

O apelido ainda vale nas instalações, esculturas, fotografias e desenhos que Marepe agora traz ao museu. Como em “Os Filtros”, instalação formada por filtros de barro expostos sobre bancos de madeira, ou as pilhas de desempenadeiras de “Desempoladeira”, ou ainda os guarda-chuvas pendurados que compõem “O Cânone”.

Mesmo reconhecendo a influência de Duchamp sobre a sua trajetória, Marepe não gosta de rotular suas criações como “ready-mades”, nome dado pelo francês aos objetos produzidos em massa que ganhavam status de obra de arte quando expostos nos museus e galerias. Prefere chamar as peças de “nécessaires”.

“É uma homenagem ao Duchamp, que era francês, mas também é uma palavra muito nossa. E ela fala do que é necessário. No meu trabalho, uso objetos úteis no dia a dia”, explica Marepe.

“Não está tão ‘ready’ assim. Tem muito ‘made’”, diz Nery. O curador ressalta que, enquanto Duchamp trabalhava com o deslocamento puro, no caso de Marepe muitas das peças são feitas à mão, encomendadas a artesãos locais.

O caminhão de madeira de “A Mudança”, espécie de brinquedo de criança agigantado, por exemplo, é obra de um marceneiro contratado, assim como o armário modular de “Embutido Recôncavo”, dois trabalhos sobre o êxodo do campo para a cidade.

Esse embate entre artesanal e industrial, aliás, contamina a obra do artista, em trabalhos que mesclam crítica social e ironia em doses equivalentes. “Nenhum trabalho dele é direto”, analisa Nery, destacando as brincadeiras de forma e título características de Marepe.

“Satélite Baldio”, por exemplo, transforma quase 200 baldes de plástico num corpo celeste com as cores da bandeira nacional. “Metamorfose” enfileira 15 bacias de metal, formando um casulo prateado. Carretéis de costura desenrolados pintam o chão de um degradê de tons de azul em “Chorinho”.

O artista diz ver essa modernidade se apoderar aos poucos da cidade natal —mesmo os letreiros escritos à mão que abundavam em Santo Antônio na época de “Tudo no Mesmo Lugar pelo Mesmo Preço” foram praticamente extintos, substituídos por plotagens. 

Mas ele não acha que as mudanças tenham afetado tanto as suas criações. “Tenho essa nostalgia ainda, viajo mais para o passado. Estou sempre com um pé por lá.”

O saudosismo, como qualifica Nery, aparece mais claramente em referências à infância e à sua família.

São obras como as “Camas de Vento”, macas acrescidas de asas de borboleta, “Palmeira Doce”, performance na qual o artista pendurou algodões-doces em troncos de árvores, e “Retrato de Bubu”, uma enorme pintura de nanquim que reproduz uma fotografia de seu avô. A última foi pendurada por Marepe ao lado do retrato de Georges Pompidou no museu de mesmo nome, em Paris, em 2005, quando o artista inaugurou uma mostra naquele museu.

“Periquitos” é uma de suas criações mais representativas nesse sentido. Um enorme televisor de mentirinha reproduz uma prática, comum nos anos 1960, de colar tiras de papel celofane sobre a tela para tornar a imagem colorida. Em seu interior, retratos de Marepe criança, fantasiado de periquito, se movem para cima e para baixo.

'Periquitos', obra de Marepe de 2005 exibida em sua retrospectiva na Pinacoteca
'Periquitos', obra de Marepe de 2005 exibida em sua retrospectiva na Pinacoteca - Cortesia Galerie Max Hetzler/Divulgação

Ao responder como observa a evolução de sua carreira desde que começou, há mais de 20 anos, Marepe afirma que seus trabalhos ganharam camadas mais sutis, delicadas.

Uma mudança e tanto para um artista que, questionado pelo jornal Correio da Bahia sobre qual era o tema de seu trabalho em 2003, disparou: “Meu trabalho é todo ligado à pobreza”.

“Marepe: Estranhamente Comum” é mais uma mostra a abordar uma produção que floresceu no Nordeste neste ano em São Paulo. Além dela, estão em cartaz “Vaivém”, que chega ao fim no CCBB na semana que vem, “À Nordeste”, em cartaz no Sesc 24 de Maio, e a 36ª edição do Panorama do MAM, que, com o tema sertão, tem abertura marcada para o dia 17 de agosto.

O curador Pedro Nery recusa, no entanto, o rótulo de “regionalista” quando se trata do trabalho do baiano.

 “Quer dizer que se um artista fizer uma obra sobre a avenida Paulista ela vai ser regionalista? O regionalismo está no olhar do outro”, afirma. “O que o Marepe faz é trazer a experiência dele para a produção.”

Marepe
Pina Estação - lgo. Gal. Osório, 66, 4º andar. Qua. a seg., 10h às 17h30. Abertura sáb. (27), às 11h. Até 28/10. Grátis.

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