Mesmo machista, jornal O Pasquim era lugar de mulher

Nos 50 anos da criação do semanário, elas lembram como foi chefiar a publicação quando os homens ali foram presos

Luiz Antônio Araujo
Porto Alegre

A psicóloga gaúcha Barbara Oppenheimer, ex-mulher do jornalista Tarso de Castro, foi uma das primeiras mulheres a participar do jornal O Pasquim, que completaria cinco décadas agora.

Marco do jornalismo brasileiro, o semanário criou, no entanto, uma reputação incômoda com o passar dos anos —a pecha de machista.

Suas páginas estampavam fotografias de corpos femininos e títulos como “Todo paulista é bicha”. Para uma publicação nascida na época em que feministas queimavam sutiãs, isso pode parecer constrangedor.

Afinal, o Pasquim era lugar de mulher? 

“Apesar do machismo de alguns integrantes, o Pasquim era lugar de mulher, sim”, diz Oppenheimer, em seu apartamento em Porto Alegre. Em 1969, ela largou o emprego no Rio de Janeiro e se tornou diretora administrativa do jornal criado pelo marido e outros jornalistas.

 
Na primeira fila, da esquerda para a direita: Barbara Oppenheimer e Nelma Quadros, em foto no fim dos anos 70, com outros colaboradores na redação da Rua Clarice Índio do Brasil, em Botafogo, no dia em que o Pasquim voltou a circular após a 'gripe' - Arquivo Pessoal

Não era a única na equipe. Em 1970, Tarso convidou Martha Alencar para chefiar a redação. Diante da resistência de parte da equipe, ela ocupou um dos cargos mais altos.

“A pretensão de Tarso de que eu fosse chefe era quase uma brincadeira”, afirma a hoje produtora, por telefone, do Rio. Aos 79 anos, ela diz que “o jornal tinha um tipo de humor meio machista”. “Eu me identificava até certo ponto com aquilo. Tinha uma cabeça meio de homem, bebia no botequim. Brincava, fazia humor com meus sentimentos.” 

Casada com o diretor Hugo Carvana, Alencar fez parte da Dissidência, racha do Partido Comunista Brasileiro. Ingressou no Pasquim depois de meses de autoexílio na França.

A famosa entrevista da atriz Leila Diniz ao jornal foi feita na casa de Oppenheimer. “Leila era uma pessoa fascinante, um sonho. Ficou como precursora porque dizia palavrão. Mas todas diziam na época”, lembra, aos risos.

O Pasquim foi um dos alvos da ditadura. Em 1970, uma charge de Jaguar reproduziu a tela “Independência ou Morte” com um balão em que dom Pedro 1º dizia “quero mocotó”.

Oppenheimer foi chamada pelo atual Comando Militar do Leste. “Estava trabalhando, com a minha minissaia mais ‘míni’, e aí ligaram e tinha de ir imediatamente ao QG. Era assim, né? ‘Dona Barbara, imediatamente comparecer ao gabinete do general’. Aí eu fui lá. E o general disse: ‘Por ordens superiores, está suspenso o jornal’.”

Em novembro, sobreveio a “gripe do Pasquim”, com a prisão de quase toda a redação. Alencar, grávida de dois meses, foi levada à Vila Militar.

Um oficial duvidou da gestação. “Não me venha esticando essa barriga. Para mim, você não está grávida. Aliás, mulher que fica até de madrugada trabalhando com um bando de homens não é mulher. Por mim, você estava no xadrez com seus colegas”, teria dito. Ela foi solta no dia seguinte.

Oppenheimer foi presa na redação. “Na Vila Militar, queriam saber sobre movimento comunista internacional e Fidel Castro. Resolvi dizer que não sabia quem era. O oficial me disse: ‘A senhora está brincando’. Eu respondi que não. Hoje, vejo que não foi por coragem e sim por inconsequência de juventude.” 

Solta, esperou até janeiro de 1971 pela saída de Tarso. O jornal foi mantido pelos que não foram presos, a cargo de Oppenheimer, Alencar e Nelma Quadros, “secretária de fé e medianeira”, que ficaria no jornal até os anos 1980. 

Em 1971, Tarso, Oppenheimer e Alencar deixaram o Pasquim. Mais tarde, chegou à redação a jornalista Iza Salles. 

Ex-presa política e torturada, ela fora absolvida em um dos dois processos a que respondia na Justiça Militar, mas não podia deixar o país.

“Como meu nome estava ‘queimado’, propuseram Iza Freaza, sobrenome do meu ex-marido. Até hoje muitos me chamam assim”, afirma Salles, aos 80 anos, no Rio.

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