Descrição de chapéu Flip Tragédia no rio doce

Mineração no Brasil sempre foi máquina de moer gente, diz autora de livro sobre Mariana

Jornalista Cristina Serra fez críticas à ação das mineradoras no país em mesa da Flip

Naief Haddad
Paraty

Autora do livro "Tragédia em Mariana", a jornalista Cristina Serra fez críticas veementes à ação das mineradoras no país em mesa na noite deste sábado (13) na Flip, em Paraty.

“A mineração no Brasil sempre foi uma máquina de moer gente. No século 19, muitos escravos morreram soterrados em minas. Por mais que a tecnologia tenha evoluído, essa máquina de moer continua ativa”, afirmou a jornalista. “Foram 19 mortos com o rompimento da barragem em Mariana, em 2015. Foram 247 mortos, três anos depois, em Brumadinho.”

Lançado no fim do ano passado, "Tragédia em Mariana" (ed. Record) conta histórias de vítimas e fala como o descaso do setor público e das mineradoras resultou no maior desastre ambiental da história do país. Foram 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro espalhados pela natureza, com 38 municípios atingidos.

Cristina Serra, autora do livro 'Tragédia em Mariana', participa de mesa voltada a questões ambientais ao lado do americano David Wallace-Wells, com mediação de Julia Duailibi - Eduardo Anizelli/Folhapress

Quando a tragédia aconteceu, Serra era repórter do programa Fantástico, da TV Globo, e foi enviada pela emissora ao local. “Nem nos piores pesadelos ou nos filmes-catástrofe você consegue visualizar um estrago com aquela dimensão”, contou ela durante o evento. 

De acordo com a jornalista, que levou três anos para concluir o livro, decisões econômicas que desprezaram questões de segurança estão na raiz do desastre. Essas decisões (ou a falta delas) dependem de respaldo político.

Segundo Serra, 80% dos deputados estaduais de Minas Gerais da legislatura de 2014 foram financiados por empresas mineradoras. Esse dado explicaria o fato de os parlamentares não terem proibido a construção de reservatórios pelo ultrapassado método de alteamento a montante (com crescimento em degraus e utilizando o rejeito da própria mineração) mesmo após a tragédia de Mariana.

Com mediação da jornalista Julia Duailibi, a mesa voltada a questões ambientais reuniu Cristina Serra e o jornalista americano David Wallace-Wells, autor do livro “A Terra Inabitável – uma História do Futuro” (ed. Companhia das Letras).

Ambos criticaram as políticas ambientais do governo de Jair Bolsonaro.

“Um país, agindo individualmente, pode fazer muito pouco nesse campo porque são questões de abrangência global. Mas o caso do Brasil é diferente devido à Amazônia. Se o governo Bolsonaro continuar desconsiderando o desmatamento nessa região, o Brasil pode ter um peso negativo equivalente ao da China em relação às mudanças climáticas”, afirmou Wallace-Wells.

De acordo com ele, no fim do século, se não mudarmos de rota, o PIB global será 30% menor do que seria sem mudança climática.

Cristina Serra lembrou que o país já viveu outros períodos de frouxidão em relação à área ambiental. O cenário sob esse novo governo, portanto, não é inédito. Mas ressalta: “O que vejo de mais grave é a tentativa de desqualificação de interlocutores legítimos da área ambiental, como o Raoni”, diz a jornalista.

“Todas as medidas do governo federal até aqui apontam para um desmonte da área ambiental”, afirma Serra.

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