Descrição de chapéu RFI

Na Europa, Emicida levanta discussão sobre rap ter tão poucos artistas gays

Desconheço um lugar onde o racismo aconteça de uma maneira tão sutil e perversa, disse o rapper

Lúcia Müzell
Paris | RFI

Em plena turnê europeia, o rapper Emicida traz um questionamento raro ao movimento hip-hop: por que há tão poucos artistas assumidamente gays? Ao convidar dois dos nomes mais fortes da cena LGBTQ brasileira —Pabllo Vittar e Majur— para o single "AmarElo", o cantor e compositor mexe com os padrões habituais da cena rap.

"Quando a gente convida Pabllo e Majur para o epicentro da coisa, é para colocar a música rap na frente do espelho e se perguntar: por que não temos mais artistas assumidamente gays? Que tipo de atmosfera a gente construiu que faz essas pessoas se sentirem agredidas na nossa presença?", afirma Emicida.

"Em que momento, da nossa trajetória, enquanto movimento cultural que emancipa tantas pessoas ao redor do mundo, a gente deixou de ser um braço, de estender a mão para essas pessoas? 'AmarElo' visa também fazer essa reflexão."

A música ainda traz um sample de "Sujeito de Sorte", de Belchior. Composto nos anos 1970, em plena ditadura, o título parece mais atual do que nunca. "'Alucinação' é um disco que todos nós deveríamos escutar, e agora. Ele tinha um sentido no Brasil dos anos 1970 e é incrível como parece ter sido escrito para 2019", avalia Emicida.

Na entrevista, o rapper bem que tentou evitar falar de política, mas não resistiu. "Quando o país tem 13 milhões de desempregados e a preocupação do presidente é impedir que pessoas transexuais tenham acesso a um vestibular específico para elas, eu acho que a gente precisa lamentar, não rebater. A gente não está retrocedendo: a gente está caminhando rumo ao suicídio coletivo não só do projeto político inexistente desse governo atual, mas da nação como um todo", avalia o cantor, um dos artistas brasileiros contemporâneos mais respeitados no exterior.

Emicida lançou na Europa um vinil com "AmarElo" e "Eminência Parda" —fruto do trabalho com a paraense Dona Onete, o paulista Jé Santiago e o português Papillon. A letra, e sobretudo o clipe da música, abordam o lugar que os afrodescendentes ocupam no imaginário da classe média brasileira.

"A letra fala sobre existir, com poder, com grandeza. Sobre se olhar no espelho e se sentir grandioso", explica o artista. "Mas o vídeo tem uma força perturbadora, que é um paradoxo muito presente na realidade das pessoas do Brasil. Esse tipo de racismo é quase uma exclusividade do Brasil. Desconheço um lugar onde aconteça de uma maneira tão sutil e, ao mesmo tempo, tão perversa."

Emicida avalia existir um conflito entre a história do Brasil e a sua memória. Na história, a presença dos afrodescendentes fez a cultura brasileira "ser tão grandiosa", a exemplo de Luís Gama, Cruz e Sousa, Abdias do Nascimento e Léria Gonzales. "Eles deram contribuições incríveis para o Brasil ser como ele é, e isso é um fato. Está na nossa história. Mas, na memória do cidadão brasileiro médio, a gente não conseguiu conduzir a nossa cultura para que a memória das pessoas estivesse atrelada aos fatos", afirma Emicida. "Ela ficou refém de uma série de estereótipos negativos a respeito das pessoas que descendem dos africanos, principalmente após a abolição da escravatura."

Nesse contexto, o combate ao racismo entra na esteira de uma série de outros questionamentos de acontecimentos históricos e científicos —como até o fato de a Terra ser redonda ou as vacinas, eficazes. "Nos últimos tempos, não são só os militantes antirracistas que sofrem com a ascensão da ignorância no Brasil", constata.

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