Descrição de chapéu

Na Flip, todo mundo é ex

Em Paraty, para não escorregar, todo mundo anda olhando para o chão e não distingue quem passa ao lado

Marcella Franco
PARATY (RJ)

Na primeira noite da Flip, passados os usuais show e palestra de abertura, fui escorregar junto com uma amiga carioca nas pedras típicas de Paraty em busca de alguma cozinha ainda aberta. Um risotinho de funghi, delirava Monique, de bota molhada e braço apoiado no meu, duas senhoras bambas pelas ruas traiçoeiras da cidade.

Rua em Paraty (RJ) - Diego Padgurschi/Folhapress

Eu devia escrever sobre esse pavimento escroto, eu devia maneirar no queijo ralado, cada uma no seu metiê ao longo de 40 minutos ou um quarteirão e meio, o que acontecesse primeiro. Monique avisa que não há nada mais batido que crônicas sobre as pedras, que o jornal conta comigo e que meu chefe espera bem mais de mim.

Sou teimosa. E arrogante. Esse chão desse lugar é pauta, sim. A gente viaja para uma cidade linda, estuda o programa, lê 632 páginas de “Os Sertões”, desce serra à base de Dramin, tudo para chegar aqui e passar cinco dias derrapando do Centro Histórico ao Caborê.

A cidade se vangloria de ao menos disponibilizar praças acessíveis. São rampas para que cadeiras de rodas e carrinhos de bebê desfrutem com mais facilidade de suas instalações, e eu penso que deve ser mesmo muito positivo para as cadeiras e carrinhos voadores poder pousar na beiradinha e, aterrissados, subir felizes o acesso de um metro de comprimento.

Controverso, charmoso e insuportável: tal qual um escritor frustrado, o pavimento é o não-assunto mais frequente nas vielas em semana de Flip. E, ainda assim, o que ninguém se dá conta é de que, embora infernal, ele não é um vilão. Junto com os churros recheados e a sala de imprensa dentro da igreja, o pavimento é o bálsamo da feira.

Enquanto os dois primeiros sanam a larica e o deadline, impiedosos, as pedras são a escusa perfeita para evitar encontros indesejáveis. Se todo mundo anda olhando para o chão, para não escorregar feito a Monique, ninguém distingue quem passa ao lado. E, na Flip, quem passa ao lado é sempre um ex.

Se São Paulo ou alguma outra cidade de ruas normais sediasse a feira, estaríamos todos condenados a abraçar e beijar todo o currículo de antigos amores, desafetos e colegas. Mas, em uma versão beira-mar de Casablanca, a sorte é que sempre teremos Paraty.

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