Onze municípios de SP e MG querem indicação geográfica por terras vulcânicas

A área tornou-se uma das mais valorizadas regiões produtoras de café do país e, mais recentemente, de oliveiras

Flávia G. Pinho
São Paulo

Um vulcão, extinto há cerca de 80 milhões de anos, serviu como piso para 12 municípios de São Paulo e Minas Gerais.

Dentro e fora da formação circular, claramente visível em fotos de satélite, distribuem-se cadeias montanhosas da Serra da Mantiqueira que abrangem as cidades paulistas de Águas da Prata, Caconde, Divinolândia e São Sebastião da Grama, além das mineiras Andradas, Bandeira do Sul, Botelhos, Cabo Verde, Poços de Caldas, Caldas, Campestre e Ibitiúra de Minas.

Não por acaso, a área que soma 120 mil m², a 1.250 metros de altitude em média, tornou-se uma das mais valorizadas regiões produtoras de café do país e, mais recentemente, de oliveiras.

Segundo o geólogo Gaston Eduardo Enrich Rojas, do Instituto de Geociências da USP, a tese de que havia um vulcão naquelas bandas é amplamente aceita pela comunidade científica —e suas erupções conferiram ao solo uma composição rara de minerais.

“A forma circular coincide com a cratera, onde ainda há depósito de cinzas vulcânicas. Por isso, o solo da parte de dentro do círculo tem características diferentes do terreno ao redor”, afirma.

Agora, produtores rurais da região querem o reconhecimento oficial de que o solo vulcânico garante a seus produtos características únicas —conceito que, no mundo da gastronomia, é conhecido como "terroir".

Criada informalmente há sete anos e oficializada em outubro de 2018, a Cafés Vulcânicos —Associação dos Produtores de Cafés Especiais da região de Poços de Caldas — está reunindo a papelada para entrar com o pedido de registro de indicação geográfica no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

Levantamento topográfico e laudos elaborados por especialistas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, atestando a alta qualidade dos cafés cultivados nos municípios em questão, fazem parte do dossiê.

O objetivo é comprovar que a alta concentração de minerais, somada à altitude e ao padrão de insolação, que garantem dias quentes e ensolarados alternadas com noites geladas, produzem cafés com personalidade inconfundível.

Responsável por escolher os cafés servidos na rede de cafeterias Suplicy Cafés Especiais, o gerente de produto Richard Kumagai traz do Sítio Pirapitinga, em Divinolândia, os microlotes exclusivos da unidade que fica no topo do Farol Santander.

Segundo ele, os grãos cultivados pelo produtor José Clóvis Borges traduzem claramente as características peculiares da região.

“O solo rico em minerais proporciona sabores exóticos, frutados, com bela acidez e muito aromáticos”, diz.

Por enquanto, apenas 13 produtores se associaram. Mas o presidente Marco Sanches, proprietário de duas fazendas cafeeiras, aposta que muitos outros entrarão para o time se o pedido de registro for deferido. Sua ideia é que, além de cafeicultores, torrefadores e exportadores também se associem.

“O selo dará ainda mais força para nosso café no mercado internacional”, aposta.

Bem mais recentes na Mantiqueira, os olivocultores pegaram carona no movimento e já estão se articulando também para obtenção do registro de indicação geográfica.

Constituída no final de 2018, a Associação dos Olivocultores das Serras Vulcânicas já tem 11 membros.

Preside a entidade o empresário Moacir Carvalho Dias, proprietário da Fazenda Irarema, em São Sebastião da Grama (SP), com 21 mil pés plantados em 80 hectares

As árvores são jovens e só estarão produzindo plenamente dentro de três anos, quando Dias pretende colocar 63 mil litros de azeite anuais no mercado.

“Em um raio de 30 quilômetros, temos quatro produtores de azeite premiados internacionalmente. Assim como o pessoal do café, achamos importante marcar esse diferencial”, afirma.

Na avaliação do consultor e degustador profissional de azeites Paulo Freitas, a qualidade do azeite cultivado em solo vulcânico não se deve apenas à concentração de minerais, mas também à boa drenagem.

“Ao longo do tempo, as cinzas resultantes das erupções deixaram o terreno mais fofo, o que impede o acúmulo de água e favorece especialmente as oliveiras”, afirma.

O grupo Fazenda Sertãozinho, que produz o café Orfeu e, até ano que vem, lança o azeite da marca, entrou para a Associação dos Olivocultores das Serras Vulcânicas.

Antes mesmo de ter o produto no mercado, a empresa faturou duas medalhas de ouro no EVO International Olive Oil Contest 2018, um dos mais importantes do setor.

Para o gerente de marketing da Orfeu, Thomaz Monteiro, o selo de indicação geográfica agregaria ainda mais valor aos produtos. “Ele garante procedência e qualidade. O paladar do brasileiro está mais exigente e o interesse pela origem dos produtos é crescente.”

Carla Borriello, proprietária do azeite Borriello, produzido em Andradas (MG), confia tanto na ideia que se antecipou ao registro —o rótulo da nova embalagem já menciona a origem em solo vulcânico.

Vendido como iguaria para mais de uma centena de clientes paulistanos, entre eles os mercados Casa Santa Luzia e St Marche e o restaurante Tuju, do chef Ivan Ralston, o azeite custa R$ 88 no vidro de 500 ml.

“Quanto mais informações colocamos no rótulo, mais valor agregamos ao produto. Estabelecimentos que compravam meu azeite a cada três meses passaram a pedir novo estoque todo mês.”

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