Descrição de chapéu Flip

Padre gay, esquerdinha de patinete e branco antirracista pautaram debates da Casa Folha

Espaço importante da programação paralela da Flip recebeu colunistas e convidados

PARATY (RJ)

No primeiro dia de debates da Casa Folha, espaço importante da programação paralela da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), o público formou longas filas para ver os colunistas da Folha e convidados em mesas que discutiram homossexualidade entre padres, ativismo pró-patinetes e luta antirracismo.

A sigla LGBTI+ deveria comportar mais uma letra –“P”, para padres, disse o jornalista francês Frédéric Martel, autor de “No Armário do Vaticano”. Ele participou do debate “A Igreja de Francisco e a Biologia de Darwin” ao lado do jornalista Reinaldo José Lopes, blogueiro da Folha e coautor de “Darwin sem Frescuras”.

Sua tese: a maior parte do Vaticano é gay. Para ele, é porque "essa homossexualidade não é assumida, porque a Igreja Católica não viveu a liberação sexual e está 50 anos atrasada, que existe um sistema de acobertamento dos abusos sexuais”.

Martel disse que, a princípio, nada esperava do papa Francisco, um "jesuíta, argentino, peronista e de 82 anos”. Isso mudou. “Comecei a entender o pano de fundo dessa equação em que ele se meteu. Existem cardeais que querem que ele renuncie. Pela primeira vez, há uma guerra civil contra um papa”.

 

Pela manhã, Luiz Felipe Pondé alvejou o "inteligentinho de esquerda que acha que andando de bicicleta vai salvar o mundo".

Esse tipo "ultimamente tem falado muito de patinete", afirmou o colunista da Ilustrada no debate "Quebrando o Coro dos Contentes".

O título da mesa vem de uma conversa que teve com Otavio Frias Filho, ex-diretor de Redação da Folha, morto em agosto, a quem dedicou seu novo livro, “Saudades de Deus e Outros Textos” (Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha). Em 2008, quando foi convidado a escrever no jornal, ouviu de Otavio que estava sendo contratado para “quebrar o coro dos contentes”.

À noite o público voltou a lotar a rua do Comércio, no centro histórico da cidade colonial, para assistir à conversa dos colunistas Djamila Ribeiro e Antonio Prata, mediada pela editora Paula Cesarino Costa sobre o politicamente correto.

Depois de 300 anos de escravidão, o ideal seria que os negros ficassem tomando piña colada no Caribe enquanto os brancos lutam contra o racismo no Brasil, na opinião da escritora Djamila Ribeiro. Justo, “já que a gente ficou esses anos todos lutando e vivendo o racismo”, disse. “Mas, como não vai ser possível, seria importante as pessoas começarem a não delegar”, afirmou. “As pessoas brancas precisam começar a entender a importância de elas debaterem racismo, elas lerem sobre isso, ter ações antirracistas nos seus espaços.”

“Ser politicamente incorreto faz sentido quando a gente vive num sistema cruel, desigual, violento. Faz sentido ser incorreto aí. Ter uma contra narrativa, ir contra a norma estabelecida”, disse Djamila. “Mas houve um esvaziamento do termo politicamente correto. Se o respeito ao próximo, à humanidade do outro, é ser politicamente correto, devemos ser.”

Para Antonio Prata, o assunto não o incomoda. “A patrulha do politicamente correto é um comentário no meu Facebook. A patrulha da Rota mata”, afirmou, em consonância com o discurso de Djamila, que afirmou que “é mais efetivo discutir segurança pública, guerra às drogas.”

O escritor afirmou que, por um tempo, achou “nada mais saudável que haja uma coerção social” que iniba o comportamento racista, mas que o momento político atual, com ascensão de grupos conservadores no Brasil e no mundo, mostrou que “a gente tem que pensar se o discurso é eficaz, ou se é uma maquiagem que a gente coloca na frente do ódio e o ódio volta pulando o muro.”

Para Djamila, por outro lado, “isso não é novo. O Brasil é um país extremamente conservador”, afirmou. “Para grupos minoritários, esse discurso de ódio é presente na nossa vida desde sempre. Esse ódio está impregnado na construção da sociedade brasileira.”

Marcella Franco, Úrsula Passos e Thiago Amâncio
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