Lil Nas X e Billie Eilish levam geração 'pós-millennial' ao topo das paradas

Maiores surpresas da música no ano representam cosmopolitismo e independência

garota no palco com microfone na mão e lenço no pescoço

A cantora americana Billie Eilish durante apresentação no festival britânico Glastonbury, no último dia 30 de junho junho de 2019 Henry Nicholls/Reuters

São Paulo

O maior hit do ano até agora custou US$ 30. Esse foi o valor que Lil Nas X pagou pelo instrumental de “Old Town Road”, música em que mistura batidas de trap com arranjos country, um hit tão improvável quanto bem-sucedido. É não só a música mais ouvida do primeiro semestre como o single de estreia a ficar mais tempo no topo da lista de mais ouvidas neste século.

“When We Fall Asleep, Where Do We Go?”, o primeiro álbum de Billie Eilish, não deve ter custado muito mais que “Old Town Road”. Suas 14 músicas foram produzidas pelo irmão mais velho dela, hoje com 21 anos, em seu quarto de infância. Até agora, é o segundo disco mais ouvido do ano, atrás apenas de “Thank U, Next”, de Ariana Grande.

Há menos de seis meses, o rapper morava no sofá da irmã em Atlanta; a cantora nem sequer saiu da casa dos pais.

Cada um à sua maneira, Lil Nas X, 20, e Billie Eilish, 17, são produtos de uma juventude que praticamente nasceu com a internet, uma geração que cresceu com a cultura pop dos anos 2000 e agora chega à idade adulta.

Um estudo do ano passado do think tank americano Pew Research Center considera “pós-millennials” os nascidos na virada do fim do século passado para o início deste. Eles pertencem também à chamada geração Z e têm no máximo 20 anos agora.

Segundo a pesquisa, nos Estados Unidos, quase metade, ou 48%, dos jovens dessa faixa etária hoje são de alguma minoria étnica ou racial. Em 2002, eram 39% de “não brancos”; em 1986, o número não passava de 30% e, em 1968, só 18% dos jovens eram de alguma minoria.

No último fim de semana, Lil Nas X publicou uma foto com Billie Eilish no Twitter. Mais do que as 350 mil curtidas que recebeu, atestando a popularidade turbinada da dupla, a imagem representa essa nova geração multiétnica.

Ela, branca de olhos claros, usa as calças largas e tênis esportivos, visual clássico do hip-hop, identificado com a cultura negra. Ele, rapper negro de Atlanta, combina calça e jaqueta jeans claros com detalhes brancos, menos country que o chapéu Gucci do visual de caubói descolado que ele ostenta ao cantar “Old Town Road”.

Billie Eilish não chega a rimar, mas seu disco é carregado de batidas de hip-hop, gênero que passou o rock como mais ouvido nos Estados Unidos e é cada vez menos visto como nicho. Musicalmente, ela vai de baladas sombrias no estilo Lorde a uma lamentação ao ukulele; recorta um diálogo da série de comédia “The Office” enquanto evoca o tédio vocal de Lana Del Rey.

Nas letras, Eilish combina inseguranças adolescentes com um medo paralisante de amar, desejando que o crush fosse gay para não querer passar mais tempo com ele. Em sua música mais famosa, “Bad Guy”, ela diz que é “do tipo que faz sua mãe chorar”, “deixa sua namorada emputecida” e “talvez seduza seu pai”. “Minha mãe gosta de cantar junto comigo, mas ela não vai cantar essa música”, afirma.

garoto e garota sentados em sofá
Os musicos Billie Eilish e Lil Nas X. Credito:@LilNasX no Twitter - @LilNasX no Twitter

Suas roupas folgadas sem sex appeal vão na contramão da estrela pop tradicional pós-Madonna. “Ninguém pode dizer, tipo, ‘ah, ela é cheinha, ela não é cheinha, ela tem a bunda flácida, ela tem a bunda grande’”, disse a cantora em sua campanha para a Calvin Klein.

O vocalista do Foo Fighters, Dave Grohl, comparou Eilish à sua ex-banda, o Nirvana, e disse que ela é a prova de que o rock continua vivo. Para o jornal The New York Times, seu disco de estreia “redefine o estrelato pop jovem”.

Com maior alcance, mas ainda sem o prestígio de Eilish, Lil Nas X tem talvez a história de sucesso mais pós-millennial possível. Seu hit, “Old Town Road”, viralizou primeiro como meme e depois nas paradas de sucesso oficiais.

Nas X, que nunca andou a cavalo, fez um hit sobre cavalgar até não conseguir mais, unindo o trap —batida espaçada e viajante que é tendência há anos no hip-hop— com o country de maneira escancarada. Nem precisa dizer, mas a união do country, historicamente identificado com os brancos e com a vida rural, com o rap, música negra e urbana, já é uma ousadia.

A batida, que ele achou navegando pelo YouTube, traz um sample do Nine Inch Nails, banda de rock que ele nem conhecia (vale lembrar que Nas X não viveu os anos 1990).

Depois de lançada, a música foi se espalhando aos poucos pelas redes sociais até chegar ao Tik Tok. No aplicativo de compartilhamento de vídeos, febre entre adolescentes, a canção viralizou com um clipe caseiro, em que várias pessoas aparecem vestidas de caubói em diferentes situações

“Old Town Road” havia entrado nas paradas americanas de country, mas a Billboard decidiu que a música não se enquadrava o suficiente no estilo e a deixou só nos rankings de hip-hop. A polêmica deu gás à faixa e Nas X convidou —pelo Twitter— o cantor country Billy Ray Cyrus, pai de Miley, para um remix com participação dele. A opinião da Billboard sobre o quão country era a música já não importava. Ela estava em primeiro lugar das paradas.

Billie Eilish e Lil Nas X, tanto na obra quanto na postura, parecem contestar certezas básicas da indústria da música americana. No fim de semana, ao anunciar que é gay, o rapper reagiu com certa naturalidade. “Pensei que fosse óbvio”, disse.
 

Sem investimento, produtores veteranos ou apoio de grandes gravadoras, Eilish e Nas X precisaram de uma conta no SoundCloud, talento e alguma coragem para chegar ao topo. Mas estar fora da indústria talvez seja o maior trunfo deles. Seus trabalhos soam frescos, sem abuso dos clichês atuais do pop.

Mesmo diante da incerteza sobre a longevidade de suas carreiras, a importância dos dois já é evidente. É como se eles tivessem ajudado a ressignificar a palavra jovem enquanto sinônimo de música pop. A porta está aberta. ​


Billie Eilish

Idade 17 anos

Desempenho no primeiro semestre de 2019 Ela já era conhecida no SoundCloud, mas seu disco de estreia, ‘When We Fall Asleep, Where Do We Go?’, é o segundo mais ouvido do ano até agora. Em unidades de álbum equivalentes (cálculo que leva em conta vendas físicas e digitais e também reproduções em streaming), ela vendeu 1,3 milhão de cópias do trabalho

Origem Nasceu em Los Angeles, em 2001. Filha de atores, dançava, cantava em um coral e fazias as próprias roupas

Produção Eilish e seu irmão de 21 anos, Finneas, compuseram e gravaram a maioria do disco em seus respectivos quartos, onde passaram a infância e onde ela mora até hoje. “Ocean Eyes”, lançada quando Eilish tinha 13 anos, foi a primeira música feita pela dupla

Lil Nas X

Idade 20 anos

Desempenho no primeiro semestre de 2019 Música mais tocada do ano, ‘Old Town Road’ foi ouvida 1,4 bilhão de vezes. O clipe do remix em parceria com Billy Ray Cyrus, lançado há um mês, já chega às 180 milhões de visualizações. No topo da Billboard desde abril, é a faixa de estreia de um artista a ficar mais tempo em primeiro lugar

Origem Nascido em 1999, Montero Lamar Hill foi criado pela mãe e pela avó em um conjunto habitacional de Atlanta

Produção Depois de achar a batida de country com trap na internet, ele gravou seus versos no armário do quarto e pôs a música na internet. O beat, que ele achou no YouTube, não custou mais do que US$ 30. A música traz um sample do Nine Inch Nails

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.